Diário de Bordo VI - O Melhor e o Pior do Corpo Docente
Quando começaram as aulas, eu e o Danilo sentimos como se tivéssemos dado um passo atrás. Aulas muito básicas, sobre estética da imagem, do som, da montagem, com professores experientes e alguns até mais novos que agente. Depois de estudar (?) quatro anos (!) de cinema, é realmente frustrante chegar a uma escola pela qual criamos uma grande expectativa e não encontrarnada novo. Pensamos que fosse talvez uma questão de ter paciência, tendo em vista que muitos alunos nunca viram uma câmera de cinema e que estudaram outras coisas - jornalismo, relações internacionais (como disse um professor por aqui, “isso se estuda?”), química, artes plásticas - diversificado não só nas nacionalidades mas também nessa primeira formação acadêmica.
O que quase sempre alivia a tensão de estudar num lugar em que o conteúdo didático não satisfaz suas dúvidas e necessidades são as pessoas que você encontra. Isso já havia acontecido na FAAP, onde fizemos grandes amizades e conhecemos alguns mestres interessantes. Por uma casualidade muito feliz (alguns chamam de destino, outros de coincidência, podendo até ser entendido como sorte), pessoas que já haviam cursado uma outra faculdade e chegavam a aquela faculdade com uma visão nem tão madura, mas com certeza sem a ingenuidade e a euforia de alguém que entra num curso de cinema sem realmente saber o que quer da vida.
Acredito que desde o primeiro dia em que pisamos nesta primeira faculdade encaramos o cinema como uma arte, e faríamos desta arte o nosso ofício. As afinidades espirituais também fizeram-nos firmar uma forte amizade e cumplicidade com pessoas de outras turmas mais adiante, e pouco tempo depois, realizarmos trabalhos juntos. Aqui em San Tranquilino há tanto movimento humano que muitas vezes você se engana com as aparências, ou nem mesmo consegue abstrair a verdadeira essência da pessoa. Graças a Deus tem muita gente aqui que não usa máscara, o que facilita o nosso trabalho. Já narrei sobre alguns alunos em outros Diários e ainda narrarei muito mais, mas como devem ter notado pelo título, esse aqui é dedicado especialmente para alguns professores que conquistaram nosso aprêço.
Talvez seja melhor falar de cada um individualmente, mesmo porquê não há como relacioná-los, a única coisa em comum entre eles é que vivem nos apartamentos aqui da escola. E como estamos cursando o que chamam aqui de semipolivalência, composto de “talleres” que duram uma ou duas semanas, com aulas a tarde, a descrição acabará por ser um pouco superficial, pois ainda não houve tempo de convivência, com exceção de um professor, realizador e grande amigo:Rolando Pardo. Vou deixar o Rolando por último por uma questão de logística de narrativa. Começo com um professor que tem um nome comum para muitos brasileiros: Nelson Rodriguez.Três dias antes de sair de São Paulo tive a oportunidade de assistir, no Cinesesc da Rua Augusta, a uma cópia restaurada do filme “Memórias do Subdesenvolvimento” (Memorias del Subdesarollo) , do diretor cubano Tomás Gutierrez Alea, considerada uma das mais importantes obras cinematográficas realizadas em Cuba. O protagonista é Sergio, um burguês que se recusa fugir dos efeitos da Revolução com sua mulher e seus pais, que decidem ir para Miami. O filme é grande em todos os aspectos, especialmente no que lhe diz respeito ao ritmo, ou seja, a montagem. Tem um começo alucinante, logo nos créditos iniciais, recheado de batuques africanos e imagens de pessoas dançando, algumas em transe. Nelson Rodriguez foi um dos grandes responsáveis pela apoteose que é esta fita. Quando soube que teríamos aula com esse grande profissional, dois sentimentos distintos permeavam minhas idéias, emoção e medo. Emoção porque em cada palavra dele eu tentava imaginar o que sepassava em sua cabeça ao montar o “Memórias…” e medo por sentir que talvez ele pudesse não ter uma didática eficaz. Mas todas essas primeiras impressões desapareceram e fomos cada vez mais cativados pela figura de Nelson, um senhor mulato, muito magro, calvo, com um bigode grisalho cheio o bastante para deixar visível somente a parte inferior dos lábios, andar desengonçado no qual os braços angulados quase não se movem, apesar de ser uma pessoa bastante gestual quando fala. Logo no primeiro dia de aula expôs sua fraqueza ao tabaco, que mesmo com uma enfisema pulmonar “tratava de fumar menos”, sempre deixando escapar um sorriso sutil ao final de cada frase. Disse que tinha um limite de quatro cigarros por dia, egeralmente fumava dois ou três cigarros pela manhã, durante a aula. Simplesmente não havia didática porque Nelson não é um professor de formação, e sim um montador, de modo que tentou passar para a gente em uma semana tudo o que aprendeu em 40 anos de carreira. Usou bastante o equipamento de vídeo da sala para mostrar diferentes escolas de montagem e contava muitos ‘causos’. Obviamente, provocamos ele um pouco para que pudesse falar sobre o Cinema Brasileiro, muito reconhecido em Cuba. Sempre quando dirigia-se aos alunos, espremia os olhos como se recebesse uma entidade, e quando abria, olhava pra cima. Só falava com seus olhos abertos se caminhasse para frente e encostasse em alguma cadeira perto dos alunos. Contou que o Brasil encabeçava um movimento de resistência cultural cinematográfica fortíssima, na figura de Glauber Rocha (citou o Ruy Guerra e o Nelson Pereira dos Santos), que para ele era um gênio que (in)felizmente tinha muitas idéias em sua cabeça, a ponto de apresentar traços esquizofrênicos. Claro que dizia isso com alguma ironia. Nada que a gente não soubesse, mas foi bom ouvir isso de uma pessoa como ele. Ainda disse que teve o “privilégio” de fumar alguns baseados com Glauber no Malecón, onde se davam conversas intermináveis sobre uma gama de assuntos, de cinema a política, de religião a cosmos.
Essas duas semanas passaram rápido, pois suas aulas eram muito prazeirosas. Logo após esse breve curso teórico, passamos para uma fase mais interessante: os exercícios práticos na moviola. Agora, com outros professores, oumelhor, professoras. Eram três mulheres de meia-idade, todas com experiência e ativas no ofício. Para os leigos, moviola é a máquina onde os filmes eram montados fisicamente, em contato direto com a película, cortando e colando com durex, o que faz desta prática um trabalho verdadeiramente artesanal. Hoje em dia é mais comum que os filmes sejam montados em computador, virtualmente, sem contato direto com a película. E isso não ocorre há muito tempo, ou seja, por mais de oitenta anos os filmes foram montados artesanalmente. Trabalho árduo numa sala escura. Rosa Maria, mulher baixa e robusta, com olhos grandes e penetrantes, cabelos curtos penteados para trás com um gel, sem um fio branco, obviamente tingidos, era a professora encarregada de explicar no que consistia o exercício e organizar os grupos. Nos dividimos em duplas e revezávamos no uso dascinco moviolas que a escola dispõe. Cada professora ficava com um punhado de duplas. Por sorte, Rosa Maria ficou com a dupla brasileira Camila e Eduardo. Com muita paciência, extremamente materna, nos ensinou a operar aquela moviola. Eu e Camila já havíamos montado nossos filmes em moviolas diferentes, mas nofundo são todas iguais, e ela se surpreendeu com a rapidez que pegamos o jeito.O exercício era montar um curta de três minutos filmado na escola no ano passado. Chamava-se “Raízes Profundas”, sobre um casal de velhinhos que esperam um ônibus que nunca chega e de repente começam a dançar e cantar celebrando o amor. De início achamos o material muito fraco, o que até nos motivou a fazer uma boa montagem, e a cada momento que reprisava a cenados velhinhos cantando, criávamos mais empatia com os atores. Ela sempre nos dizia para agregarmos o clima da história com o ritmo da montagem. Coincidentemente, sempre quando voltava do café, estávamos descontraídos, cantando na moviola, fazendo um batuque meio fora do tempo. Nosso astral conquistou tanto aquela mulher, que quando fazíamos alguma cagada na montagem, ela logo consertava e mostrava o que estava errado, com tanta doçura que eu a imaginava nos xingando por dentro, não era possível alguém ser tão tolerante com dois estudantes bobos e negligentes (ficamos bobos e negligentes conforme nossa auto-confiança de que estávamos fazendo um bom trabalho foi crescendo). Acho que ganhamos ela de vez quando levei o computador para a Moviola e coloquei “Rosa Maria”, cantada pelo Milton Nascimento. Puta covardia.Quando terminamos o exercício não houve choro nem vela, apenas nos despedimos como ainda fôssemos nos encontrar nesse restrito universo que é San Tranquilino.
Acontece que fiquei mais ou menos três semanas sem ver Rosa Maria. Volta e meia pensava nela, mesmo porque um outro grupo de alunos já estava trabalhando na moviola e eu sabia que ela estava na escola. Nesse dia em especial, pensei muito nela, em como havia mimado a gente, que se fosse em certas faculdades de São Paulo seríamos completamente execrados pelos professores. Dobrando uma esquina, trombei com ela, e o forte abraço mútuo foi instantâneo. Comentamos a mesma coisa: quanto tempo havia passado! Depoisde uma semana de convívio intenso era estranho estar afastado todo esse tempo. Nos despedimos novamente, mas com a minha promessa de fazer-lhe uma visita. Nem precisou. Nos outros três dias seguintes também nos encontramos.Nesse quarto encontro, comento que aquela série de encontros vieram para compensar o afastamento. E ela, como ótima e experiente montadora, me diz: “É tudo uma questão de tempo! É o ritmo que a gente precisa”.
Após essas duas gratas surpresas, não fazíamos idéia de como poderia ser o professor do curso de som. Mesmo porque minha experiência com o professor de som da primeira faculdade no Brasil foi bem traumática: não preciso citar o nome, mas o cidadão falava como uma matraca, alto e agudo, de cada dez palavras, oito eram palavrões, e cada vez mais nos desmotivava a aprender, pois reduzia os alunos a condição de retardados mentais. A mim não afetava muito o seu jeito de ser, o pai devia ser militar e mãe hiper-passiva. Bom, pior não dava pra ficar. Pensava nessas coisas quando José Borrás entrou na sala. Ele estava muito curioso em conhecer todos daquele grupo, e antes de começar a aula pediu para que todos se apresentassem. É um senhor de 60 anos, também calvo, com óculos retangulares que não escondem a expressão de leveza que carrega seu espírito. Extremamente conservado para sua idade, com poucas rugas, havia parado de fumar há sete anos, e pediu encarecidamente que não fumassem perto dele pois temia cair em tentação. Danilo me disse que eu havia simpatizado com ele por ser parecido com meu pai. Com certeza deve ter contribuído, mas mesmo que não tivesse semelhança a empatia era coisa certa.Além dos inúmeros exercícios práticos, utilizava exemplos inusitados para explicar os fenômenos sonoros, como por exemplo a ressonância, que faz as moléculas de determinada matéria entrarem em colapso: desde como os nazistas destruíram três ou quatro pontes, com todos seus soldados em cima, por causa dos passos em uníssono que faziam para demonstrar o orgulho da raça ariana; até como um grande tenor quebrava cálices com a força de sua voz, obviamente depois de ensaiar a uma distância X do cálice que continha uma quantidadeY de vinho ou água. Não era truque, era cálculo. Aos poucos foi revelando sua identidade contando suas experiências como técnico de som do ICAIC(Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica). Havia trabalhado em documentários pró-Revolução, e apesar disso, não parecia um militante.Talvez um ex-militante, pois nunca chegou a usar sua aula pra fazer propaganda ideológica. Ouvia-se dizer, mas eu nunca tive a pachorra de perguntar diretamente a ele, que também atuara como espião auxiliando a Revolução Cubana. Como aquela pessoa tão carinhosa poderia ter passado por tantas agruras? O tempo geralmente endurece as pessoas, mas no caso dele, só amaciou.Para explicar a potência das ondas sonoras e a velocidade do som, nos contou, mais ou menos assim, com um estranho bom humor: “Senhores, aconteceu comigo uma vez, e eu só aqui lhe falando isso porque não estava na minha hora de morrer. Os outros dois que estavam comigo também sobreviveram. Estávamos filmando um material perto de um campo de treinamento de aviões russos, perto da Sierra Maestra. Captávamos o som ambiente quando avistamos um avião vindo em nossa direção. E de repente, vejos umas luzes, como fogo, saindo dasasas do avião. Estavam atirando! E nós, sem sucesso, acenando uma camisabranca, para que nos identificassem como cubanos. Sai um fogo maior docompartimento embaixo do avião. Senhores, vocês não sabem qual é o som do horror! Omíssil deve ter explodido a uns trinta metros de onde estávamos. E só estou aquifalando com vocês, por duas razões: a primeira é que esse míssil penetrava no solo e explodia depois de alguma profundidade, a segunda, talvez a mais importante, é que do outro lado do vale, havia um soldado assistindo e auxiliando as manobras, e que percebera eu agitando a camisa branca. Foi pedindo para o piloto desviar a mira, aos poucos, de modo que isso evitou que explodisse debaixo de nossos pés”. Depois disso entendi o seu bom humor,acho que Borrás agradece a isso todos os dias.
O professor de fotografia era um alemão chamado Jörg Gessßler. Todas aspiadas que Fellini fez sobre os alemães em seus filmes se justificaram com a presença deste homem. Não preciso descrevê-lo muito, apenas a barriga de chopp, barba precocemente grisalha que contrastava com seus cabelos castanhos, com grisalhos apenas nas laterais, e seus olhos azuis que expressavam muito mais o que estava sentindo do que o que queria dizer. Fomos o último grupo (os 38 alunos são divididos em três grupos) a encarar o Jörg e sabíamos mais ou menos o que nos esperava. As aulas eram dadas em alemão, e traduzidas simultâneamente por um cubano muito simpático, Joel, um homem por voltade 45 anos, também com barba mas muito muito bem aparada, calvo com resquícios de cabelo na parte superior da cabeça, que não deixavam de ser penteados pra trás, como se quisesse aproveitar e valorizar os ultimos fios que lhe restavam, com olhos claros e bronzeado de sol (hoje em dia colocam aspessoas num microondas para que elas ganhem uma certa tonalidade alaranjada, acreditem). Os dois tinham personalidades opostas. Enquanto Jörg falava alto e respondia duramente as dúvidas que julgava como óbvias, Joel traduzia de uma forma tranquila, e muitas vezes expressando certa indignação com o tomque Jörg usava com os alunos. Quando Jörg dava bronca e Joel queria fazer graça, fazia uma careta e traduzia na mesma entonação usada pelo professor. Tiveum prenúncio do que seria o convívio com Jörg quando tomava um café e caminhava pelo corredor externo da escola. Um outro grupo estava fazendo exercíciospráticos com uma câmera de vídeo e senti que todos seguravam um estranho silêncio. É aí que o boliviano Alejandro tenta explicar para Jörg qual acena que ele quer fazer. Jörg resmunga longamente em alemão. E Joel traduz:“Eu não quero saber o que vocês vão fazer, eu quero que o façam!”.“Esse domador de leões veio diretamente da Alemanha, pois essas feras temmais facilidade para serem treinados e compreenderem o idioma alemão”, diz o narrador, em tom sério, no filme “Os Palhaços”, de Federico Fellini. Háuma outra referência ao autoritarismo alemão, do mesmo diretor, no filme“Ensaio de Orquestra”, onde o maestro é um alemão perfeccionista com crises de preciosismo. Depois das aulas de Jörg, mergulhei a fundo nos filmes deWerner Herzog, aparentemente uma pessoa tranquila, mas com projetosaparentemente irrealizáveis. Quem viu “Fitzcarraldo”, “Cobra Verde” ou “Aguirre, ACólera dos Deuses”, sabe do que estou falando. Queria porque queria desvendar o espírito alemão, e ainda faltava um filme, “Meu Melhor Inimigo”, um documentário sobre sua relação de amor e ódio com Klaus Kinski, um atorpra lá de temperamental. Não consegui desvendar coisa alguma, só me intrigueimais.Antes de começar seu curso, Jörg ficou sabendo que a escola reformulounão só o cronograma mas como a grade inteira. Criaram novos cursos teóricos e reduziram as aulas práticas apenas para o período da tarde. O alemão, revoltado, ao invés de falar diretamente com a direção acadêmica,escreveu uma carta pública e colocou no mural. Estava em alemão e em seguida atradução para espanhol. Terminava mais ou menos assim: “...um curso de fotografiadesta dimensão foi concebido para tempo integral e é impensável que esseconteúdo seja passado na metade do tempo! Ao invés de estar ensinando, me encontrocom minhas manhãs vazias e perambulando pela escola, quando poderia estarfazendo algo muito mais útil e produtivo!” Era daí pra baixo. O cidadão tava umafera. E quem pagou por isso? Os alunos e o coitado do tradutor Joel. Inventouque era imprescindível aulas aos sábados de manhã. Me perguntem se alguém o contestou!Logo na primeira aula, ele expôs o seu problema de tempo e disse que iriasintetizar a matéria ao máximo de forma que nada escapasse, e que era necessário uma pontualidade britânica dos alunos para que tudo corressebem. Mas nessa escola há o tal espírito de liberdade, e apenas uma minoriachega na hora. Para quem chegava atrasado ele encarava e dizia: “Isso éintolerável! Não vou mais aceitar isso!”. A mim nunca disse nada, pois por algummotivo me respeitava. Creio que o Sveinung, o norueguês viking, também se livrou dealguns esporros. Quando nos apresentamos dissemos que tínhamos alguma experiência com fotografia e talvez por isso tenha decidido poupar-nos dealgumas exigências. Dava intervalos de quinze minutos, que os alunosestendiam até meia-hora. E tome bronca dupla: em alemão e em espanhol. Por mais queele gritasse e esbravejasse, sabíamos que era uma boa pessoa. Algumas vezes pegávamos ele brincando com o vira-lata Ulisses, e parecia uma criança deslumbrada com um animal de estimação que acabara de ganhar.Jörg protagonizava episódios engraçadíssimos e dois deles merecem estarnesse Diário: o primeiro foi quando, numa sexta-feira, estava acontecendo umagrande festa dos alunos do segundo ano. Eu estava preocupado pois já era cincoda manhã, estava sem sono, e sabia que havia a primeira aula de sábadodentro de quatro horas. Pergunto para Kristina, a iugoslava do segundo ano, sobre aexigência de Jörg com relação a presença dos alunos nessa aula. Ela mediz para eu relaxar, que o alemão vai a Havana todas as sextas, enche a carae volta tarde. Eu acreditei apenas na primeira parte. Saio caminhando meio hesitante, pensando se devo ir para a pista de dança ou para o meuquarto. Dou três passos e paro. Vejo Jörg no meio dos alunos, com uma lata de cervejamão. Me aproximo dele com uma expressão indagadora, com as sobrancelhasfranzidas, sem dizer uma palavra. E ele, meio desajeitado, nos diz em inglês, línguausada quando todos estão com preguiça de fazer-se entender em espanhol: “Scheissen… a gasolina do meu carro acabou no meio de uma estrada que nãotinha nada, unicamente pés de laranja! Deixei o carro e vim a pé… edepois de caminhar duas horas, aqui estou!”, disse transpirando e suspirando rum. Avontade era de cair na gargalhada, mas segurei a onda. No dia seguinte,estava impecável para a aula.O segundo episódio foi a forma de como ele foi embora da escola. Sabíamosque as aulas de fotografia do primeiro ano haviam acabado, e que talvezficasse para lecionar no ano que vem. Para a surpresa de todos, Jörg haviadeixado a escola e um email para todos, num espanhol sofrível, líamos com sua vozde matraca rachada habitando nossos pensamentos: “Estoy volvendo a mi pais!Tengo que trabajar! Como no hay tiempo para evaluación de los alumnos, todos tubieran 100 puntos! Ciao!”.Estávamos numa festa privada organizada no apartamento das talleristas deroteiro, que chamávamos de “As Sete Incríveis”. O mestre Rolando Pardo medisse, em tom de confissão, que o grupo brasileiro presente na escola arrasava, já havia conquistado professores e funcionários. É óbvio queencarei aqueles elogios rasgados com certa hesitação, pensava que poderia sermero jogo diplomático argentino. Mesmo porque estávamos de olho na mesmamulher, Ulla, uma dinamarquesa de 33 anos, ruiva, escultural, inteligentíssima, eque, pasmen, falava um portguês quase perfeito, pois havia morado em Jaú porum ano. Depois de meia hora de conversa regada a charutos e rum, muita coisase revelou sobre Rolando, sempre muito aberto a conversas. Fez muitas curvase pegou diversos desvios na estrada da vida, até parar aqui na Escola como professor e chefe de cátedra, onde está há seis anos. Passou uns anos no Brasil dirigindo comerciais e seu maior orgulho nesta carreira é terdirigido Jorge Benjor num comercial de cerveja, mesmo porque é fã incondicional demúsica brasileira. Não precisa fazer muito esforço para identificar seus traços argentinos: cabelos ondulados grisalhos, bem como seu bigode,ambos cheios, baixo, largo e com barriga saliente. Parece um maestro aposentadoque decidiu passar seus dias fumando charutos e comendo alfajores.A forma com que fala português é curiosa, acentua fortemente os sonstípicos do português falado no Brasil, especialmente no Rio e em São Paulo.Sempre quando encontra algum brazuca fala algo do gênero “E aí, gentchi boa…”,“Comu você tá? Noitchis alegres, manhãs trichtes…”, “Salve simpatchia!”,“Ontchi eo ouvi una musica de Batatchinha…” Porra, fui conhecer o sambista Batatinhacom o argentino Rolando.A primeira vez que tive oportunidade de conversar com Rolando e ensaiaruma aproximação, ele estava checando seu correio eletrônico com um charutoapagado na mão. Não resisti e rapidamente vi a tela de seu computador. Tratava-sede uma receita de um prato com pescado. Nem precisei perguntar nada. Elediz: “Mira, eso aqui é bom demaix meu amigo!”. Realmente dava água na boca.Isso até me deu a idéia de escrever para minha amiga Joana, estudante de gastronomia, e pedir umas receitas interessantes. O problema é que aindanão tenho fogão e nem sei bem o que se pode ou não encontrar em Cuba. Acomida é muito restrita e bem dividida. Se queres comer carne de vaca, vais pagarcaro. Frango e porco são mais comuns e baratos. Aqui, se não me engano, todasas vacas são estatais, e a pena para alguém que mata uma vaca ilegalmente éde 25 anos. Se você mata um homem pode pegar uma pena de até 15 anos. Ou seja, juridicamente falando, aqui uma vaca vale mais que um homem. Ainda bemque aqui não há fome, senão já estariam pensando em adotar práticas canibais.Claro, o risco é menor. Só que segundo o caboverdeano Yuri, que deve teralgum amigo canibal, mentira, estudou antropologia por um tempo (ouantropofagia?) o gosto da carne humana parece com a de porco. Não faria muito sucessopor aqui.Num jantar em seu apartamento, junto com As Sete Incríveis, Rolando me presenteou três charutos Romeo y Julieta, longos e robustos,maravilhosos. Já havia provado charutos mas nunca me caíra tão bem. Nesse dia decidi pararcom o cigarro e começar com charuto, ainda mais em Cuba, que é mais barato, eademais não teria outra oportunidade de fumar puros de qualidade a preçostão baixos, sob risco de voltar ao Brasil com um hábito incompatível comminha condição financeira. Pedi a Rolando que me levasse junto a próxima vezque fosse comprar charutos no mercado negro e, depois de duas semanas, assimo fez. Danilo foi também. Era uma casa em San Antonio de los Baños, numapequena vila, que me fez lembrar de algumas viagens ao interior de São Paulo eParaná. O contato era um casal de mulheres que viviam a filha do primeirocasamento de uma delas. Por toda casa, fotos da filha, hoje com dezessete anos,espalha pelas paredes, sem uma organização estética aparente. Não fiqueireparando muito, estava interessado nos malditos charutos. Entramos em seu quarto eela retira, debaixo da cama, umas doze caixas de puros que faria inveja aqualquer apreciador. Não sabíamos de sua procedência e a mim pouco importava.Compro, por sugestão de Rolando, uma caixa de Partagás Serie D e outra de MonteCristo Especial. Danilo levou uma caixa de Cohiba e outra de Monterrey, umcharuto raríssimo, que depois descobrimos serem falsos, ou seja, esse contato nãoé tão íntegro assim. Talvez elas nem saibam, mas enfim, quem paga (ocharuto e o pato) somos nós. Ainda não parei com o cigarro, mas os puros agora fazemparte de nossa vida, graças ao argentino mais brasileiro desta escola, Rolando Pardo.Estávamos curiosos para assistir o longa-metragem de Rolando, o único quedirigiu, chamado “La Redada” (O Enquadro), de 1992. Sempre comentava queo filme era ele, o que pensava e sentia sobre o mundo, sobre a vida. Haviaum exemplar na filmoteca e com certeza nos ajudaria a compreender um perfiltão excêntrico. E como havia feito apenas um filme, suspeitamos de algumascoisas: ou ele falou tudo o que tinha pra falar nesse filme, ou chegou aconclusão de que deveria aplicar-se em outra coisa, como lecionar ou dirigircomerciais; ou fez um filme que ninguém viu e desistiu; ou era um gênio incompreendidoque havia feito uma única obra-prima. Também sentia que o filme poderiatratar de algum assunto relacionado com a ditadura, trauma que os artistasargentinos carregam até hoje e ainda falam sobre isso com certa amargura. Estavacerto quanto a isso, era baseado numa história real, onde um general mandara ‘limpar’ a cidade dos mendigos e prostitutas. O tom era de uma comédia crítica, que circulava por personagens bizarros, mendigos bêbados (umdeles era o próprio Rolando), prostitutas obesas que transam com anões, ouseja, um universo que acabou surpreendendo a gente com relação a aquele senhor. Ofilme era muito rico em imagens, mas carecia de dramaturgia, de desenvolvimentode personagens, o que o tornava as vezes meio duro, artificial. Lembro queisso causou um certo constragimento entre eu e o Danilo, que víamos o filmecom alguns amigos, também curiosos para ver uma obra de um professor nosso. Comentamos que, se essa fita fosse feita em São Paulo, seria dirigida pornosso colega Renê Brasil, por seu tema social e a forma como foiabordada, e a direção de arte ficaria a cargo de outro colega, Akauê Barkó, pelas coresfortes, principalmente por uma porta roxa que os mendigos encontram nomeio de um terreno baldio. A figura do general era engraçado, tinha unspassarinhos engaiolados em sua sala e que por vezes os mandava calarem a boca (e elesobedeciam), e pasmem, em sua sala havia duas vassouras cruzadas naparede, coincidência ou não, lembramos de Jânio Quadros. Por essa e outras identificações e compreensões, acabamos por admirar ainda mais Rolando,pela coragem de ter tentado fazer um filme difícil, mas genuíno e sincero,fiel aos seus sentimentos. É um artista, sem dúvida. E nos ajudou a solidificarmosmais a certeza de que tratar de temas sociais é muito difícil (não basta reconstruir uma situação e sim dialetizar as relações sociais como umtodo) e que nunca, na história do cinema, vimos mendigos fielmente retratadoscomo são, sem cair em maniqueísmos e estereotipos.
