Sunday, October 17, 2004

Diário de Bordo VI - O Melhor e o Pior do Corpo Docente

Diário de Bordo VI - O Melhor e o Pior do Corpo Docente

Quando começaram as aulas, eu e o Danilo sentimos como se tivéssemos dado um passo atrás. Aulas muito básicas, sobre estética da imagem, do som, da montagem, com professores experientes e alguns até mais novos que agente. Depois de estudar (?) quatro anos (!) de cinema, é realmente frustrante chegar a uma escola pela qual criamos uma grande expectativa e não encontrarnada novo. Pensamos que fosse talvez uma questão de ter paciência, tendo em vista que muitos alunos nunca viram uma câmera de cinema e que estudaram outras coisas - jornalismo, relações internacionais (como disse um professor por aqui, “isso se estuda?”), química, artes plásticas - diversificado não só nas nacionalidades mas também nessa primeira formação acadêmica.

O que quase sempre alivia a tensão de estudar num lugar em que o conteúdo didático não satisfaz suas dúvidas e necessidades são as pessoas que você encontra. Isso já havia acontecido na FAAP, onde fizemos grandes amizades e conhecemos alguns mestres interessantes. Por uma casualidade muito feliz (alguns chamam de destino, outros de coincidência, podendo até ser entendido como sorte), pessoas que já haviam cursado uma outra faculdade e chegavam a aquela faculdade com uma visão nem tão madura, mas com certeza sem a ingenuidade e a euforia de alguém que entra num curso de cinema sem realmente saber o que quer da vida.

Acredito que desde o primeiro dia em que pisamos nesta primeira faculdade encaramos o cinema como uma arte, e faríamos desta arte o nosso ofício. As afinidades espirituais também fizeram-nos firmar uma forte amizade e cumplicidade com pessoas de outras turmas mais adiante, e pouco tempo depois, realizarmos trabalhos juntos. Aqui em San Tranquilino há tanto movimento humano que muitas vezes você se engana com as aparências, ou nem mesmo consegue abstrair a verdadeira essência da pessoa. Graças a Deus tem muita gente aqui que não usa máscara, o que facilita o nosso trabalho. Já narrei sobre alguns alunos em outros Diários e ainda narrarei muito mais, mas como devem ter notado pelo título, esse aqui é dedicado especialmente para alguns professores que conquistaram nosso aprêço.

Talvez seja melhor falar de cada um individualmente, mesmo porquê não há como relacioná-los, a única coisa em comum entre eles é que vivem nos apartamentos aqui da escola. E como estamos cursando o que chamam aqui de semipolivalência, composto de “talleres” que duram uma ou duas semanas, com aulas a tarde, a descrição acabará por ser um pouco superficial, pois ainda não houve tempo de convivência, com exceção de um professor, realizador e grande amigo:Rolando Pardo. Vou deixar o Rolando por último por uma questão de logística de narrativa. Começo com um professor que tem um nome comum para muitos brasileiros: Nelson Rodriguez.Três dias antes de sair de São Paulo tive a oportunidade de assistir, no Cinesesc da Rua Augusta, a uma cópia restaurada do filme “Memórias do Subdesenvolvimento” (Memorias del Subdesarollo) , do diretor cubano Tomás Gutierrez Alea, considerada uma das mais importantes obras cinematográficas realizadas em Cuba. O protagonista é Sergio, um burguês que se recusa fugir dos efeitos da Revolução com sua mulher e seus pais, que decidem ir para Miami. O filme é grande em todos os aspectos, especialmente no que lhe diz respeito ao ritmo, ou seja, a montagem. Tem um começo alucinante, logo nos créditos iniciais, recheado de batuques africanos e imagens de pessoas dançando, algumas em transe. Nelson Rodriguez foi um dos grandes responsáveis pela apoteose que é esta fita. Quando soube que teríamos aula com esse grande profissional, dois sentimentos distintos permeavam minhas idéias, emoção e medo. Emoção porque em cada palavra dele eu tentava imaginar o que sepassava em sua cabeça ao montar o “Memórias…” e medo por sentir que talvez ele pudesse não ter uma didática eficaz. Mas todas essas primeiras impressões desapareceram e fomos cada vez mais cativados pela figura de Nelson, um senhor mulato, muito magro, calvo, com um bigode grisalho cheio o bastante para deixar visível somente a parte inferior dos lábios, andar desengonçado no qual os braços angulados quase não se movem, apesar de ser uma pessoa bastante gestual quando fala. Logo no primeiro dia de aula expôs sua fraqueza ao tabaco, que mesmo com uma enfisema pulmonar “tratava de fumar menos”, sempre deixando escapar um sorriso sutil ao final de cada frase. Disse que tinha um limite de quatro cigarros por dia, egeralmente fumava dois ou três cigarros pela manhã, durante a aula. Simplesmente não havia didática porque Nelson não é um professor de formação, e sim um montador, de modo que tentou passar para a gente em uma semana tudo o que aprendeu em 40 anos de carreira. Usou bastante o equipamento de vídeo da sala para mostrar diferentes escolas de montagem e contava muitos ‘causos’. Obviamente, provocamos ele um pouco para que pudesse falar sobre o Cinema Brasileiro, muito reconhecido em Cuba. Sempre quando dirigia-se aos alunos, espremia os olhos como se recebesse uma entidade, e quando abria, olhava pra cima. Só falava com seus olhos abertos se caminhasse para frente e encostasse em alguma cadeira perto dos alunos. Contou que o Brasil encabeçava um movimento de resistência cultural cinematográfica fortíssima, na figura de Glauber Rocha (citou o Ruy Guerra e o Nelson Pereira dos Santos), que para ele era um gênio que (in)felizmente tinha muitas idéias em sua cabeça, a ponto de apresentar traços esquizofrênicos. Claro que dizia isso com alguma ironia. Nada que a gente não soubesse, mas foi bom ouvir isso de uma pessoa como ele. Ainda disse que teve o “privilégio” de fumar alguns baseados com Glauber no Malecón, onde se davam conversas intermináveis sobre uma gama de assuntos, de cinema a política, de religião a cosmos.

Essas duas semanas passaram rápido, pois suas aulas eram muito prazeirosas. Logo após esse breve curso teórico, passamos para uma fase mais interessante: os exercícios práticos na moviola. Agora, com outros professores, oumelhor, professoras. Eram três mulheres de meia-idade, todas com experiência e ativas no ofício. Para os leigos, moviola é a máquina onde os filmes eram montados fisicamente, em contato direto com a película, cortando e colando com durex, o que faz desta prática um trabalho verdadeiramente artesanal. Hoje em dia é mais comum que os filmes sejam montados em computador, virtualmente, sem contato direto com a película. E isso não ocorre há muito tempo, ou seja, por mais de oitenta anos os filmes foram montados artesanalmente. Trabalho árduo numa sala escura. Rosa Maria, mulher baixa e robusta, com olhos grandes e penetrantes, cabelos curtos penteados para trás com um gel, sem um fio branco, obviamente tingidos, era a professora encarregada de explicar no que consistia o exercício e organizar os grupos. Nos dividimos em duplas e revezávamos no uso dascinco moviolas que a escola dispõe. Cada professora ficava com um punhado de duplas. Por sorte, Rosa Maria ficou com a dupla brasileira Camila e Eduardo. Com muita paciência, extremamente materna, nos ensinou a operar aquela moviola. Eu e Camila já havíamos montado nossos filmes em moviolas diferentes, mas nofundo são todas iguais, e ela se surpreendeu com a rapidez que pegamos o jeito.O exercício era montar um curta de três minutos filmado na escola no ano passado. Chamava-se “Raízes Profundas”, sobre um casal de velhinhos que esperam um ônibus que nunca chega e de repente começam a dançar e cantar celebrando o amor. De início achamos o material muito fraco, o que até nos motivou a fazer uma boa montagem, e a cada momento que reprisava a cenados velhinhos cantando, criávamos mais empatia com os atores. Ela sempre nos dizia para agregarmos o clima da história com o ritmo da montagem. Coincidentemente, sempre quando voltava do café, estávamos descontraídos, cantando na moviola, fazendo um batuque meio fora do tempo. Nosso astral conquistou tanto aquela mulher, que quando fazíamos alguma cagada na montagem, ela logo consertava e mostrava o que estava errado, com tanta doçura que eu a imaginava nos xingando por dentro, não era possível alguém ser tão tolerante com dois estudantes bobos e negligentes (ficamos bobos e negligentes conforme nossa auto-confiança de que estávamos fazendo um bom trabalho foi crescendo). Acho que ganhamos ela de vez quando levei o computador para a Moviola e coloquei “Rosa Maria”, cantada pelo Milton Nascimento. Puta covardia.Quando terminamos o exercício não houve choro nem vela, apenas nos despedimos como ainda fôssemos nos encontrar nesse restrito universo que é San Tranquilino.

Acontece que fiquei mais ou menos três semanas sem ver Rosa Maria. Volta e meia pensava nela, mesmo porque um outro grupo de alunos já estava trabalhando na moviola e eu sabia que ela estava na escola. Nesse dia em especial, pensei muito nela, em como havia mimado a gente, que se fosse em certas faculdades de São Paulo seríamos completamente execrados pelos professores. Dobrando uma esquina, trombei com ela, e o forte abraço mútuo foi instantâneo. Comentamos a mesma coisa: quanto tempo havia passado! Depoisde uma semana de convívio intenso era estranho estar afastado todo esse tempo. Nos despedimos novamente, mas com a minha promessa de fazer-lhe uma visita. Nem precisou. Nos outros três dias seguintes também nos encontramos.Nesse quarto encontro, comento que aquela série de encontros vieram para compensar o afastamento. E ela, como ótima e experiente montadora, me diz: “É tudo uma questão de tempo! É o ritmo que a gente precisa”.

Após essas duas gratas surpresas, não fazíamos idéia de como poderia ser o professor do curso de som. Mesmo porque minha experiência com o professor de som da primeira faculdade no Brasil foi bem traumática: não preciso citar o nome, mas o cidadão falava como uma matraca, alto e agudo, de cada dez palavras, oito eram palavrões, e cada vez mais nos desmotivava a aprender, pois reduzia os alunos a condição de retardados mentais. A mim não afetava muito o seu jeito de ser, o pai devia ser militar e mãe hiper-passiva. Bom, pior não dava pra ficar. Pensava nessas coisas quando José Borrás entrou na sala. Ele estava muito curioso em conhecer todos daquele grupo, e antes de começar a aula pediu para que todos se apresentassem. É um senhor de 60 anos, também calvo, com óculos retangulares que não escondem a expressão de leveza que carrega seu espírito. Extremamente conservado para sua idade, com poucas rugas, havia parado de fumar há sete anos, e pediu encarecidamente que não fumassem perto dele pois temia cair em tentação. Danilo me disse que eu havia simpatizado com ele por ser parecido com meu pai. Com certeza deve ter contribuído, mas mesmo que não tivesse semelhança a empatia era coisa certa.Além dos inúmeros exercícios práticos, utilizava exemplos inusitados para explicar os fenômenos sonoros, como por exemplo a ressonância, que faz as moléculas de determinada matéria entrarem em colapso: desde como os nazistas destruíram três ou quatro pontes, com todos seus soldados em cima, por causa dos passos em uníssono que faziam para demonstrar o orgulho da raça ariana; até como um grande tenor quebrava cálices com a força de sua voz, obviamente depois de ensaiar a uma distância X do cálice que continha uma quantidadeY de vinho ou água. Não era truque, era cálculo. Aos poucos foi revelando sua identidade contando suas experiências como técnico de som do ICAIC(Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica). Havia trabalhado em documentários pró-Revolução, e apesar disso, não parecia um militante.Talvez um ex-militante, pois nunca chegou a usar sua aula pra fazer propaganda ideológica. Ouvia-se dizer, mas eu nunca tive a pachorra de perguntar diretamente a ele, que também atuara como espião auxiliando a Revolução Cubana. Como aquela pessoa tão carinhosa poderia ter passado por tantas agruras? O tempo geralmente endurece as pessoas, mas no caso dele, só amaciou.Para explicar a potência das ondas sonoras e a velocidade do som, nos contou, mais ou menos assim, com um estranho bom humor: “Senhores, aconteceu comigo uma vez, e eu só aqui lhe falando isso porque não estava na minha hora de morrer. Os outros dois que estavam comigo também sobreviveram. Estávamos filmando um material perto de um campo de treinamento de aviões russos, perto da Sierra Maestra. Captávamos o som ambiente quando avistamos um avião vindo em nossa direção. E de repente, vejos umas luzes, como fogo, saindo dasasas do avião. Estavam atirando! E nós, sem sucesso, acenando uma camisabranca, para que nos identificassem como cubanos. Sai um fogo maior docompartimento embaixo do avião. Senhores, vocês não sabem qual é o som do horror! Omíssil deve ter explodido a uns trinta metros de onde estávamos. E só estou aquifalando com vocês, por duas razões: a primeira é que esse míssil penetrava no solo e explodia depois de alguma profundidade, a segunda, talvez a mais importante, é que do outro lado do vale, havia um soldado assistindo e auxiliando as manobras, e que percebera eu agitando a camisa branca. Foi pedindo para o piloto desviar a mira, aos poucos, de modo que isso evitou que explodisse debaixo de nossos pés”. Depois disso entendi o seu bom humor,acho que Borrás agradece a isso todos os dias.

O professor de fotografia era um alemão chamado Jörg Gessßler. Todas aspiadas que Fellini fez sobre os alemães em seus filmes se justificaram com a presença deste homem. Não preciso descrevê-lo muito, apenas a barriga de chopp, barba precocemente grisalha que contrastava com seus cabelos castanhos, com grisalhos apenas nas laterais, e seus olhos azuis que expressavam muito mais o que estava sentindo do que o que queria dizer. Fomos o último grupo (os 38 alunos são divididos em três grupos) a encarar o Jörg e sabíamos mais ou menos o que nos esperava. As aulas eram dadas em alemão, e traduzidas simultâneamente por um cubano muito simpático, Joel, um homem por voltade 45 anos, também com barba mas muito muito bem aparada, calvo com resquícios de cabelo na parte superior da cabeça, que não deixavam de ser penteados pra trás, como se quisesse aproveitar e valorizar os ultimos fios que lhe restavam, com olhos claros e bronzeado de sol (hoje em dia colocam aspessoas num microondas para que elas ganhem uma certa tonalidade alaranjada, acreditem). Os dois tinham personalidades opostas. Enquanto Jörg falava alto e respondia duramente as dúvidas que julgava como óbvias, Joel traduzia de uma forma tranquila, e muitas vezes expressando certa indignação com o tomque Jörg usava com os alunos. Quando Jörg dava bronca e Joel queria fazer graça, fazia uma careta e traduzia na mesma entonação usada pelo professor. Tiveum prenúncio do que seria o convívio com Jörg quando tomava um café e caminhava pelo corredor externo da escola. Um outro grupo estava fazendo exercíciospráticos com uma câmera de vídeo e senti que todos seguravam um estranho silêncio. É aí que o boliviano Alejandro tenta explicar para Jörg qual acena que ele quer fazer. Jörg resmunga longamente em alemão. E Joel traduz:“Eu não quero saber o que vocês vão fazer, eu quero que o façam!”.“Esse domador de leões veio diretamente da Alemanha, pois essas feras temmais facilidade para serem treinados e compreenderem o idioma alemão”, diz o narrador, em tom sério, no filme “Os Palhaços”, de Federico Fellini. Háuma outra referência ao autoritarismo alemão, do mesmo diretor, no filme“Ensaio de Orquestra”, onde o maestro é um alemão perfeccionista com crises de preciosismo. Depois das aulas de Jörg, mergulhei a fundo nos filmes deWerner Herzog, aparentemente uma pessoa tranquila, mas com projetosaparentemente irrealizáveis. Quem viu “Fitzcarraldo”, “Cobra Verde” ou “Aguirre, ACólera dos Deuses”, sabe do que estou falando. Queria porque queria desvendar o espírito alemão, e ainda faltava um filme, “Meu Melhor Inimigo”, um documentário sobre sua relação de amor e ódio com Klaus Kinski, um atorpra lá de temperamental. Não consegui desvendar coisa alguma, só me intrigueimais.Antes de começar seu curso, Jörg ficou sabendo que a escola reformulounão só o cronograma mas como a grade inteira. Criaram novos cursos teóricos e reduziram as aulas práticas apenas para o período da tarde. O alemão, revoltado, ao invés de falar diretamente com a direção acadêmica,escreveu uma carta pública e colocou no mural. Estava em alemão e em seguida atradução para espanhol. Terminava mais ou menos assim: “...um curso de fotografiadesta dimensão foi concebido para tempo integral e é impensável que esseconteúdo seja passado na metade do tempo! Ao invés de estar ensinando, me encontrocom minhas manhãs vazias e perambulando pela escola, quando poderia estarfazendo algo muito mais útil e produtivo!” Era daí pra baixo. O cidadão tava umafera. E quem pagou por isso? Os alunos e o coitado do tradutor Joel. Inventouque era imprescindível aulas aos sábados de manhã. Me perguntem se alguém o contestou!Logo na primeira aula, ele expôs o seu problema de tempo e disse que iriasintetizar a matéria ao máximo de forma que nada escapasse, e que era necessário uma pontualidade britânica dos alunos para que tudo corressebem. Mas nessa escola há o tal espírito de liberdade, e apenas uma minoriachega na hora. Para quem chegava atrasado ele encarava e dizia: “Isso éintolerável! Não vou mais aceitar isso!”. A mim nunca disse nada, pois por algummotivo me respeitava. Creio que o Sveinung, o norueguês viking, também se livrou dealguns esporros. Quando nos apresentamos dissemos que tínhamos alguma experiência com fotografia e talvez por isso tenha decidido poupar-nos dealgumas exigências. Dava intervalos de quinze minutos, que os alunosestendiam até meia-hora. E tome bronca dupla: em alemão e em espanhol. Por mais queele gritasse e esbravejasse, sabíamos que era uma boa pessoa. Algumas vezes pegávamos ele brincando com o vira-lata Ulisses, e parecia uma criança deslumbrada com um animal de estimação que acabara de ganhar.Jörg protagonizava episódios engraçadíssimos e dois deles merecem estarnesse Diário: o primeiro foi quando, numa sexta-feira, estava acontecendo umagrande festa dos alunos do segundo ano. Eu estava preocupado pois já era cincoda manhã, estava sem sono, e sabia que havia a primeira aula de sábadodentro de quatro horas. Pergunto para Kristina, a iugoslava do segundo ano, sobre aexigência de Jörg com relação a presença dos alunos nessa aula. Ela mediz para eu relaxar, que o alemão vai a Havana todas as sextas, enche a carae volta tarde. Eu acreditei apenas na primeira parte. Saio caminhando meio hesitante, pensando se devo ir para a pista de dança ou para o meuquarto. Dou três passos e paro. Vejo Jörg no meio dos alunos, com uma lata de cervejamão. Me aproximo dele com uma expressão indagadora, com as sobrancelhasfranzidas, sem dizer uma palavra. E ele, meio desajeitado, nos diz em inglês, línguausada quando todos estão com preguiça de fazer-se entender em espanhol: “Scheissen… a gasolina do meu carro acabou no meio de uma estrada que nãotinha nada, unicamente pés de laranja! Deixei o carro e vim a pé… edepois de caminhar duas horas, aqui estou!”, disse transpirando e suspirando rum. Avontade era de cair na gargalhada, mas segurei a onda. No dia seguinte,estava impecável para a aula.O segundo episódio foi a forma de como ele foi embora da escola. Sabíamosque as aulas de fotografia do primeiro ano haviam acabado, e que talvezficasse para lecionar no ano que vem. Para a surpresa de todos, Jörg haviadeixado a escola e um email para todos, num espanhol sofrível, líamos com sua vozde matraca rachada habitando nossos pensamentos: “Estoy volvendo a mi pais!Tengo que trabajar! Como no hay tiempo para evaluación de los alumnos, todos tubieran 100 puntos! Ciao!”.Estávamos numa festa privada organizada no apartamento das talleristas deroteiro, que chamávamos de “As Sete Incríveis”. O mestre Rolando Pardo medisse, em tom de confissão, que o grupo brasileiro presente na escola arrasava, já havia conquistado professores e funcionários. É óbvio queencarei aqueles elogios rasgados com certa hesitação, pensava que poderia sermero jogo diplomático argentino. Mesmo porque estávamos de olho na mesmamulher, Ulla, uma dinamarquesa de 33 anos, ruiva, escultural, inteligentíssima, eque, pasmen, falava um portguês quase perfeito, pois havia morado em Jaú porum ano. Depois de meia hora de conversa regada a charutos e rum, muita coisase revelou sobre Rolando, sempre muito aberto a conversas. Fez muitas curvase pegou diversos desvios na estrada da vida, até parar aqui na Escola como professor e chefe de cátedra, onde está há seis anos. Passou uns anos no Brasil dirigindo comerciais e seu maior orgulho nesta carreira é terdirigido Jorge Benjor num comercial de cerveja, mesmo porque é fã incondicional demúsica brasileira. Não precisa fazer muito esforço para identificar seus traços argentinos: cabelos ondulados grisalhos, bem como seu bigode,ambos cheios, baixo, largo e com barriga saliente. Parece um maestro aposentadoque decidiu passar seus dias fumando charutos e comendo alfajores.A forma com que fala português é curiosa, acentua fortemente os sonstípicos do português falado no Brasil, especialmente no Rio e em São Paulo.Sempre quando encontra algum brazuca fala algo do gênero “E aí, gentchi boa…”,“Comu você tá? Noitchis alegres, manhãs trichtes…”, “Salve simpatchia!”,“Ontchi eo ouvi una musica de Batatchinha…” Porra, fui conhecer o sambista Batatinhacom o argentino Rolando.A primeira vez que tive oportunidade de conversar com Rolando e ensaiaruma aproximação, ele estava checando seu correio eletrônico com um charutoapagado na mão. Não resisti e rapidamente vi a tela de seu computador. Tratava-sede uma receita de um prato com pescado. Nem precisei perguntar nada. Elediz: “Mira, eso aqui é bom demaix meu amigo!”. Realmente dava água na boca.Isso até me deu a idéia de escrever para minha amiga Joana, estudante de gastronomia, e pedir umas receitas interessantes. O problema é que aindanão tenho fogão e nem sei bem o que se pode ou não encontrar em Cuba. Acomida é muito restrita e bem dividida. Se queres comer carne de vaca, vais pagarcaro. Frango e porco são mais comuns e baratos. Aqui, se não me engano, todasas vacas são estatais, e a pena para alguém que mata uma vaca ilegalmente éde 25 anos. Se você mata um homem pode pegar uma pena de até 15 anos. Ou seja, juridicamente falando, aqui uma vaca vale mais que um homem. Ainda bemque aqui não há fome, senão já estariam pensando em adotar práticas canibais.Claro, o risco é menor. Só que segundo o caboverdeano Yuri, que deve teralgum amigo canibal, mentira, estudou antropologia por um tempo (ouantropofagia?) o gosto da carne humana parece com a de porco. Não faria muito sucessopor aqui.Num jantar em seu apartamento, junto com As Sete Incríveis, Rolando me presenteou três charutos Romeo y Julieta, longos e robustos,maravilhosos. Já havia provado charutos mas nunca me caíra tão bem. Nesse dia decidi pararcom o cigarro e começar com charuto, ainda mais em Cuba, que é mais barato, eademais não teria outra oportunidade de fumar puros de qualidade a preçostão baixos, sob risco de voltar ao Brasil com um hábito incompatível comminha condição financeira. Pedi a Rolando que me levasse junto a próxima vezque fosse comprar charutos no mercado negro e, depois de duas semanas, assimo fez. Danilo foi também. Era uma casa em San Antonio de los Baños, numapequena vila, que me fez lembrar de algumas viagens ao interior de São Paulo eParaná. O contato era um casal de mulheres que viviam a filha do primeirocasamento de uma delas. Por toda casa, fotos da filha, hoje com dezessete anos,espalha pelas paredes, sem uma organização estética aparente. Não fiqueireparando muito, estava interessado nos malditos charutos. Entramos em seu quarto eela retira, debaixo da cama, umas doze caixas de puros que faria inveja aqualquer apreciador. Não sabíamos de sua procedência e a mim pouco importava.Compro, por sugestão de Rolando, uma caixa de Partagás Serie D e outra de MonteCristo Especial. Danilo levou uma caixa de Cohiba e outra de Monterrey, umcharuto raríssimo, que depois descobrimos serem falsos, ou seja, esse contato nãoé tão íntegro assim. Talvez elas nem saibam, mas enfim, quem paga (ocharuto e o pato) somos nós. Ainda não parei com o cigarro, mas os puros agora fazemparte de nossa vida, graças ao argentino mais brasileiro desta escola, Rolando Pardo.Estávamos curiosos para assistir o longa-metragem de Rolando, o único quedirigiu, chamado “La Redada” (O Enquadro), de 1992. Sempre comentava queo filme era ele, o que pensava e sentia sobre o mundo, sobre a vida. Haviaum exemplar na filmoteca e com certeza nos ajudaria a compreender um perfiltão excêntrico. E como havia feito apenas um filme, suspeitamos de algumascoisas: ou ele falou tudo o que tinha pra falar nesse filme, ou chegou aconclusão de que deveria aplicar-se em outra coisa, como lecionar ou dirigircomerciais; ou fez um filme que ninguém viu e desistiu; ou era um gênio incompreendidoque havia feito uma única obra-prima. Também sentia que o filme poderiatratar de algum assunto relacionado com a ditadura, trauma que os artistasargentinos carregam até hoje e ainda falam sobre isso com certa amargura. Estavacerto quanto a isso, era baseado numa história real, onde um general mandara ‘limpar’ a cidade dos mendigos e prostitutas. O tom era de uma comédia crítica, que circulava por personagens bizarros, mendigos bêbados (umdeles era o próprio Rolando), prostitutas obesas que transam com anões, ouseja, um universo que acabou surpreendendo a gente com relação a aquele senhor. Ofilme era muito rico em imagens, mas carecia de dramaturgia, de desenvolvimentode personagens, o que o tornava as vezes meio duro, artificial. Lembro queisso causou um certo constragimento entre eu e o Danilo, que víamos o filmecom alguns amigos, também curiosos para ver uma obra de um professor nosso. Comentamos que, se essa fita fosse feita em São Paulo, seria dirigida pornosso colega Renê Brasil, por seu tema social e a forma como foiabordada, e a direção de arte ficaria a cargo de outro colega, Akauê Barkó, pelas coresfortes, principalmente por uma porta roxa que os mendigos encontram nomeio de um terreno baldio. A figura do general era engraçado, tinha unspassarinhos engaiolados em sua sala e que por vezes os mandava calarem a boca (e elesobedeciam), e pasmem, em sua sala havia duas vassouras cruzadas naparede, coincidência ou não, lembramos de Jânio Quadros. Por essa e outras identificações e compreensões, acabamos por admirar ainda mais Rolando,pela coragem de ter tentado fazer um filme difícil, mas genuíno e sincero,fiel aos seus sentimentos. É um artista, sem dúvida. E nos ajudou a solidificarmosmais a certeza de que tratar de temas sociais é muito difícil (não basta reconstruir uma situação e sim dialetizar as relações sociais como umtodo) e que nunca, na história do cinema, vimos mendigos fielmente retratadoscomo são, sem cair em maniqueísmos e estereotipos.

Wednesday, November 05, 2003

Diário de Bordo V - Sonhos

Diário de Bordo V – Sonhos

Ganhei a consciência de que os sonhos faziam parte de um outro universo quando um personagem passou a marcar presença em todas as minhas noites de sono: o Rei Bú. Era como um preto-véio barbado, com cabelos cheios, quese manifestava como a cor invertida de um negativo de filme. Ele deveria ser negro, mas aparecia em tonalidade cinza. Seus olhos eram brancos, assim como a barba e os cabelos, e também os contornos de sua pele. Geralmente aparecia para me assustar, mas quase sempre não conseguia, pois sempre estávamos abertos para qualquer tipo de diálogo e terminávamos o sonho com uma boa prosa. Devia ter uns cinco, seis anos. Uns dois anos depois, percebi que havia um filme sempre reprisado na TV Record, depois do “Sala Especial”.Chamava-se “O Monstro Sem Alma”. Era uma espécie de Dr. Jekyll e Sr. Hide no melhor estilo Blaxploitation, movimento cultural negro dos anos 70. E o Rei Bú era parecidíssimo com o monstro bisonho. A partir daí, nunca mais sonhei com ele. No entanto, um outro fenômeno tornou-se constante: dentro do sonho, apartir de dado momento, tinha a idéia de me testar fisicamente para ver se estava sonhando. Ou eu me beliscava e sentia meu braço um pouco dormente ou tentava correr desesperadamente e não saía do lugar. Quando falava para mim mesmo“Estou sonhando, posso fazer o que eu quiser” inventava palavras mágicas para voar, materializar pessoas que eu desejava encontrar naquele momento ou me transportar rapidamente para outro lugar que fosse de meu agrado. Nem sempre tinha sucesso, era preciso muita concentração, e havia noites em que nada funcionava. Essa prática foi sumindo conforme fui entrando na adolescência e foi se tornando cada vez mais rara. Até hoje acontece, mas sem motivo aparente.Uma das questões que eu me colocava era se essa brusca mudança do espaço físico, de São Paulo a San Antonio de los Baños, fosse alterar o conteúdo de meus sonhos. Conversei com o mallorquinho Sion (ele não se diz espanhol, aliás, como todos os espanhóis, ou é galego, ou é catalão, ou andalucenho, ou basco, ou entreminhos e por aí vai - mais ou menos como os brasileiros mais regionalistas), estudante de direção do segundo ano, um tipo extremamente comunicativo, que me contou que, em um ano de escola, jamais sonhara coma escola ou pessoas daqui. Quando voltou a Espanha (perdão, para Mallorca) para férias, sonhou com a escola quatro dias seguidos. Não tive receio algum de que isso pudesse acontecer comigo, não havia nem porquê. Depois de duas semanas, mesmo dormindo mal, os sonhos eram uma confusão de informações, que mesclavam São Paulo e San Tranquilino. O furacão Elisa estava prestes a passar pela escola, antes de mudar de direção. Nunca presenciei um furacão na vida. Imaginem se isso não me apavorou. Muito pensei em gravar sua passagem, mas o visor da minha câmera queimou-se na segunda semana aqui na escola. Estava na praia da Juréia, onde uma forte tempestade estava se armando, uma forte ventania levantava a areia e todos tinham que cobrir seus olhos. Esse primeiro sonho mesclava informações que tinha sobre o furacão, situações corriqueiras da escola e meu medo do mar. O céu era um líquido negro, de cor azul-petróleo, e se movia como se o mar estivesse lá cima, prestes a cairsobre nossas cabeças. Relâmpagos emitiam uma luz tão branca que pareciauma manifestação divina dentro do céu negro. Estou no mar, onde ondas gigantes de formam. Todos os meus amigos nadam e eu, com todo esforço, mal consigo sair do lugar. Alguém me puxa pelo braço. Danilo me mostra uma série de fotos quetirou de mim, ridículas, eu tentava sair por uma janela e ficava entalado com a cabeça pra fora. Construímos uma casa de férias como forma de proteção, no melhor estilo dos três porquinhos. Havia muitas pessoas da escola presentes. Assim que a casa terminou de ser construída, alguns equipamentos eletrônicos brotaram de suas paredes: intercomunicadores, câmeras, microfones, portas eletrônicas, ou seja, levantamos a própria casa do Big Brother. Fechamos as portas para evitar que a ventania nos sugasse, quando percebo pelo monitor o franco-marroquino Youssef preso lá fora. Pego o interfone e grito paraYoussef buscar alguma porta aberta. Tento apertar uma confusão de botões para abrir qualquer porta para salvar Youssef, mas chega Danilo com fotos de minha festa de despedida; dentro das fotos há uma sequência de três fotos minhas na praia, tentando passar por uma vidraça na qual eu havia ficado entalado com umacara de desespero. Esqueço de Youssef lá fora. A forma arquitetônica com que a escola foi aparecendo nos sonhos era cada vez mais rebuscada, ora baseada no Big Brother, ora baseada num hotel de luxo. Num outro sonho, uma série de acontecimentos bizarros. A escola era construída em forma de um pentágono de vidro, onde o centro era uma sala de cinema onde estava tendo uma mostra de cinema cubano. Não sei porque cargas d’água fiquei entediado e quis sair. Mas antes fiz questão de levar um lenço de uma garota que estava no assento ao lado, ela nem percebeu, estava muito entretida beijando um cubano qualquer. Cheguei no banheiro e comecei a pensar emquem presentearia com aquele lenço vermelho. Não consegui pensar em ninguém e deixei o lenço no banheiro. Ao sair, entra a garota que eu furtei. Nesse mesmo sonho, a escola se transformou num hotel cinco estrelas, com corredores bem iluminados e com carpetes em tom acre. Passo por um lugar destinado aos estudantes do segundo ano, como se fosse uma área VIP liberada para todos fumarem seu baseado. Me indignei com aquele privilégio, mas logo pensei que um dia me tornaria segundanista. De repente, uma leva de vintes eguranças passam fazendo um verdadeiro arrastão, revistando todo mundo em busca de drogas. Corro para meu quarto, é díficil encontrar a chave. Percebo que a porta está entreaberta. Um estudante de Israel, completamente deformado, havia entrado em meu quarto por engano. Sinto um leve desconforto mais por ele ser de Israel do que propriamente pela sua condição física. Ele é simpático e pede desculpas, está confuso em seu primeiro dia de escola. Encontro Lola estirada em minha cama, que me entrega um bilhete: “Seduza-me!”. Ouço alguém me chamar e acordo. Outros sonhos mais bizarros, outros menos. Não sei se há alguma importância em narrá-los. Mas há um que me chamou muita atenção. Estávamos na escola,que era muito perto de Havana e eu havia ganho um lança-mísseis (?) inflável (?),que deveria dar carga de hidrogênio em postos espalhados pela escola. Era só dar carga para disparar. Mas, disparar contra o quê? Alguém cochicha no meu ouvido: “Duvido você acertar ele carro da polícia civil cubana”. Estávamos numa relativa distância, jamais nos descobririam. Miro e faço o disparo. Como acontece em todo sonho em que eventualmente disparo contra alguém as balas (nesse caso, o míssil) perdiam a velocidade e não havia impacto. Creio que a violência gratuita entrou muito cedo em minha vida, a partir de seriados japoneses, Spectroman, Ultraseven, Ultraman, Guerreiros do Espaço… onde assistia esperando o duelo final, onde o monstro gigante encontrava com o herói gigante, e suas lutas sempre eram um mero pressuposto para destruir a cidade, feitas com maquetes. Acabava aplicando essa prática nos brinquedos, simulava acidentes com o Ferrorama, um simulador de pistas de trem, e ensaiava sequências de ação intermináveis com os bonecos de Playmobil, os quais eu pintava de vermelho, queimava, quebrava, tudo para tornar o conflito mais realista. Era imprescindível que a misc-en-scene tivesse o tempo dos faroestes de Sérgio Leone. Ainda no sonho. Um passo a frente e você não estará no mesmo lugar, dizia uma música do Chico Science, também parafraseando um pensador que não me lembro o nome. Saindo da escola, me encontro no estacionamento do Edifício Copan, provavelmente saindo da casa de meu amigo Gustavo Brandão. Encontro meu carro completamente destruído, com as portas tortas, vidros quebrados e toca-fitas arrancado, bate aquele sentimento de impotência horrível, de se querer fazer justiça com as próprias mãos, mas quê justiça? Entro no carro e pelo retrovisor vejo um grupo de garotos de rua cercando o carro. Todos sacam as armas. Ligo o carro, engato a ré e acelero com todo o meu peso. Fisicamente, mesmo no sonho, aquela manobra era impossível por falta de espaço, deve ter dado pane no cérebro pois em seguida acordo novamente com alguém me chamando.Conforme fui optando a ficar na escola pelos finais de semana, os sonhosse saturavam mais e mais; não tinham muito para onde ir, se restringiam a lugares fechados e fatos do cotidiano, mesclando os dois universos, família e amigos do Brasil e os alunos, professores e funcionários da escola em Cuba. E mais sonhos com cavalos que tentam me morder; com elevadores caindo e eu tentando convencer a todos que estão dentro que é só a gente dar um pulinho para que, quando acontecer o impacto, estaremos no ar, e quando cairmos, o elevador já estará no chão (uma hipótese fisicamente impossível, já que teríamos que aplicar no pulo a mesma força do peso do elevador caindo); com um sótão cheio de passaportes de diversos países em branco, carimbos e selos oficiais, para que pudéssemos falsificar qualquer nacionalidade; Danilo sendo rendido por cinco policiais que não conseguem imobilizá-lo; até a saudosa Aracy de Almeida já apareceu, e eu dizendo pra ela, com sotaque carioca,“eu vou dar é três paus!”; muitas escadarias e corredores escuros… tudo significando alguma coisa, que talvez, nem nos caiba saber seus significados. E porquê temos que achar explicação para tudo? Porquê não podemos conviver com o inexplicável, o incompreensível? Porque nos causa desconforto, medo, angústia. Não tenho que desvendar sonho nenhum, eu tenho que sonhar mais, e mais, e mais… e lembrar-me de tudo. Sonho ou pesadelo, bem ou mal, é uma experiência imaginária, ou melhor, vivida, e essa é a grande dávida com que temos de nos contentar.

Thursday, October 30, 2003

Diário de Bordo IV - A Revolta

Diário de Bordo IV – A Revolta

“Prezados Senhores, desde que soube de minha aprovação para estudar
nesta Escola até efetivamente me instalar por aqui, vinha cultivando a idéia
de que, saindo de uma cidade como São Paulo, eu pudesse adquirir um alto nível
de concentração, e assim, aproveitar ao máximo o que professores têm a
ensinar.
Me haviam dito que eu teria a possibilidade de escolher um quarto, se
fosse uns dos primeiros a chegar. Infelizmente, as regras mudaram esse ano:
os quartos estão dividos por cátedras, do 01 ao 06 estão os diretores, do
07 ao 12 os roteiristas, e assim se segue com os produtores, fotógrafos,
sonidistas, montadores e documentaristas. Isso só vale para os primeiroanistas. E
como já tentei uma mudança de habitação com o Sr. Micheli, sem sucesso, venho
por meio desta expôr os eventuais problemas que venho tendo e que estão
atrapalhando meu rendimento na escola.
Como devem saber, meu quarto é o número 09, que fica em cima da cafeteria.
Não sei se a escola tem alguma regra com relação a barulho depois de determinada hora da noite, mas é fato que minhas noites de sono estão restritas a três horas no máximo.
Para dormir, já é uma dificuldade: as festas com música alta vão até as três da manhã,
quando os alunos estão pouco animados; e como se não bastasse isso, todo dia
acordo as cinco da manhã com catadores de latas, tendo em vista que a lixeira
fica embaixo do quarto, atrás da cafeteria. Esse homens, de ofício tão
árduo, não tem obrigação nenhuma de saber que há pessoas dormindo por alí. Mas
infelizmente, falam muito alto, sobre assuntos alheios que tampouco me
interessam, e pior, devem ser fãs de música experimental: fazem questão
de juntar as latas usando uma pá de ferro, raspando naquele chão de
concreto, e com isso produzem um ruído enlouquecedor. Fora o problema da ruidagem
excessiva, o ventilador só serve para espantar moscas, já que seu
regulador de intensidade não funciona. E para finalizar, a minha janela é a única
que contém barreiras, verticais e horizontais. Até entendo que é por
motivos de segurança, que o quarto fica no primeiro andar e é muito fácil
invadí-lo pela janela, jamais teria dentro de mim um sentimento de clausura por causa
disso, se meu pai não tivesse sido preso político no Brasil, ficando
encarcerado por dois anos, acusado de conspiração contra a ditadura. Com seis anos
achei uma foto sua com os braços para fora da grade, situação com a qual venho
sonhando todos os dias. Tendo em vista essa série de problemas, e antes que eu
apresente um quadro grave de psicopatia nessa lugar marcado pela
tranquilidade, peço que sejam tomadas providências com relação aos
ruídos e as barreiras presentes na janela. Atenciosamente, Eduardo Barioni, aluno
do primeiro ano da cátedra de Roteiro.”

Não sei ao certo se alguém se deu ao trabalho de ler a carta. Ninguém
nunca me procurou para me dar uma posição. Fato é que já havia deixado esse
relato há duas semanas e não aguentava mais a situação. Explorei todos os
corredores em busca de algum quarto vazio, o que legitimaria a minha mudança. Mas,
nesse dia, fiquei sabendo que um aluno do segundanista, meu companheiro de
basquete Chicho, panamenho tranquilo, havia sido suspenso por um ano e estaria
deixando a escola em breve. As razões aqui não importam. A colombiana Bárbara
mudaria para o quarto de Chicho, e essa era minha chance: ir para o quarto
dela. Mas a carta não tinha surtido efeito. Precisava de provas “palpáveis”. E eu
as tinha guardadas como trunfo.

A expressão de surpresa de Maria Júlia quando coloquei o minigravador
de voz em cima da mesa me fez questionar-me, de momento, se não estava sendo
radical. Apertei “play”.

- É com esse tipo de ruído que acordo todos os dias… disse eu.
- A ver. – disse Maria Julia, apoiando os braços sobre a mesa.

Todas as atenções voltadas para o alto-falante do minigravador. Começou
o show. “Dios Mio”, “Que horror!”, eram as palavras ditas. Depois de
exatos um minuto e quarenta e nove segundos, dei xeque-mate: “Chicho se vai.
Bárbara vai para o quarto dele. Quero ir para o de Bárbara.” E foi assim que
consegui sair do inferno diretamente para um hotel cinco estrelas: um quarto no
terceiro andar, longe da escada, com um ventilador potente, silencioso; uma
ducha forte e até agora, nenhum escorpião; um armário maior; dois móveis a mais, um
criado-mudo e um suporte baixo de madeira que serve para colocar
qualquer coisa. Na mesma noite em que mudei, decorei o quarto como se fosse meu
lugar definitivo nessa escola, tamanha minha alegria e alívio. Colei as fotos
de meus queridos no espelho, o mapa mundi atrás da porta, para não
esquecer da dimensão e da importância do Brasil na América Latina; cubri os móveis
com cangas que trouxe e com mantas do avião da Copa Airlines. No dia
seguinte chegou a televisão e videocassete, ou seja, me instalei e uma nova vida
começou. Noites de sono e sonhos. Tudo mudou. Posso ler e escrever.
Com certeza esses relatos ficarão mais descritivos do que o normal, talvez
por uma empolgação primeira, mas depois desaparecerão por uma preguiça segunda.

Posso até estar caindo em contradição, já que tanto preguei contra a
acomodação e conforto burguês, mas fato é que essa mudança foi
essencial para minha continuidade nessa escola. Seria muito difícil esperar o segundo
ano para mudar de quarto, sem mijar na cerveja de alguém ou eventualmente
sabotar o gerador de luz, para dar um fim nas festas.

Dentre as pessoas de diversos países que vivem aqui, algumas me chamam
mais atenção que as outras, sejam elas por afinidades espirituais,
emocionais ou intelectuais. Poderia falar de Sven, o noruego viking; Pierre, o
francês conquistador; Emmanuel, o francês rasta e músico; Ozren, o bósnio de
feições duras que esconde o quanto é humano e bondoso; Freddie, porto-riquenho
apaixonado pelo Brasil (aqui a maioria é); Geraldo, o mexicano de
poucas palavras, o nosso Buster Keaton; Alejandro, o boliviano a moda antiga,
vindo diretamente dos anos 40; Youssef, o marroquino que encanou que sou a
reencarnação do Jack Nicholson em “O Iluminado”; Nelson, o chileno
recém-casado, que ao voltar vai ter que casar de novo; Victor Hugo, o
colombiano intelectual produtor artístico, músico, pintor, poeta e
porra-louca; Alban, o cubano que quer ir embora; Boris, o cubano que
quer ficar… Apenas com tempo conseguirei contextualizá-los decentemente.
Mas uma pessoa me chama mais atenção pelo seu multiculturalismo: Yuri, o
guerreiro cabo-verdeano.

Yuri é uma daquelas pessoas que você encontra e percebe que terá um
amigo para o resto da vida. Não é fácil descrevê-lo, talvez nem para ele mesmo:
filho de pai belga e mãe cabo-verdeana, traz em si mais sangue africano do que
europeu, é forte, mais para magro, tem cabelos crespos com um tom ferrugem,
levemente apontados para cima, rosto marcante, com olhos fundos e um enorme
sorriso. Fala quatro línguas fluentemente: creole, francês, inglês e português,
essa última com um sotaque luso, misturado com entonação creole e o “erre”
francês.

Logo passamos a nos relacionar como irmãos, seja pelo gosto por futebol
e basquete, seja pela vontade de trocar informações sobre daonde viemos
ou mesmo pelo intercâmbio musical. A primeira vez que jogamos basquete juntos,
fomos até quadra despretensiosamente, para fazer uns arremessos. Lá estavam
Chicho e Manolo. Eu já me esquecera da última vez que havia jogado, e Yuri
estava longe das quadras há dois anos. Não sei que espécie de intervenção espiritual
houve naquele momento, mas ganhamos o jogo de 21 a 6, com direito a passes
miraborantes e enterradas acrobáticas (obviamente os passes ficaram por
minha conta e enterradas, com Yuri).

Coincidentemente, no dia de seu aniversário, a escola contratou uma
banda de rock cubana que interpretava clássicos dos anos 70, 80 e 90, ou seja,
uma salada geral. Era uma cortesia da escola para os alunos que estavam
chegando. Todos beberam demais, havia mojitos de graça, e sabe como é dar uma
infinita quantidade de doce para um bando de crianças: é caganeira na certa. Não
sobrou uma alma sóbria em San Tranquilino. A guitarra estava tão estridente
que mal dava para a ouvir a percussão. De Creedence a Metallica, não havia um
que conseguisse se equilibrar com suas próprias pernas. A festa marcou a
primeira oportunidade que todos tiveram para arrumar um par. Eu e Yuri seguimos
trajetórias paralelas: quanto mais ele bebia, mais perdia a referência
de onde deveria investir, e eu, bem, investi na primeira que deu abertura, uma
atriz cubana, Raquel, também estudante da escola. Era sabido que Raquel tinha
um namorado em Havana, que tinha amigos trabalhando aqui na escola. Logo,
era imprescidível discrição. Desculpem se agora me baixa o santo de Pedro
Juan Gutiérrez. Vou narrar os acontecimentos assim como foram. Se tiverem
algum pudor, por favor pulem para o próximo parágrafo. Narro porque
representou o primeiro momento de intimidade e sinceridade com alguém da escola.
Estávamos dançando como qualquer coisa, já não havia lógica em nenhum movimento
com relação ao ritmo da música. “Quer ir olhar a lua, as estrelas, o céu…?”
Era uma frase tão simples quanto patética, e ela riu. Não tinha por quê
elaborar algo mais requintado. Como ninguém nos notava, caminhamos separadamente
até a piscina, só pra garantir. Afinal, mesmo que até os seguranças
estivessem bêbados, não dava pra dar bandeira. Raquel é uma mulher de 22 anos,
extremamente vivida, apesar das restrições que Cuba impõe aos seus
habitantes. Baixa, com não mais que um metro e sessenta em cinco, magra mas com
músculos nos lugares certos, cabelos castanho claros com mechas loiras, olhos
castanho-escuro que transmitem uma certa autoconfiança. Passa longe de
ser uma mulher que chama atenção, mas sabe como olhar, e pior, não desperdiça
um sorriso ou uma palavra sequer. A danada tem um tempo cinematográfico.
Passamos o resto da noite juntos, transamos na piscina, depois chegou um
segurança e fomos para atrás dos coqueiros, depois chegaram os mosquitos e fomos ao
meu quarto. Eu vivia cada minuto intensamente pois sabia que dificilmente
aquilo se repetiria. Uma coisa é transar bêbado, outra coisa é fazer amor em
estado são. Não me apegaria a ela por nada desse mundo, ainda mais sabendo que
ela namorava firme há três anos. Tudo aconteceu como deveria, com exceção
pelo fato de que eu não conseguia gozar. Raquel começou a pensar que eu
estava alí por obrigação, de que não a desejava por completo. Foi difícil explicar
que, num dia de atípica ansiedade, já havia me masturbado quatro vezes,
afinal, completava um mês de completa abstinência. Ela simplesmente não
entendia!
Foi preciso muita conversa e muito carinho para fazê-la entender que a
culpa não era dela. Disse que poderia ter inventado que aquilo fazia parte de uma
técnica trântrica para se alcançar o orgasmo com mais intensidade, que
poderia ter-lhe dito que estava esperando que ela gozasse, que por estar de
camisinha poderia eu mesmo ter fingido um orgasmo e acabar logo com aquela farra,
enfim, havia uma série de desculpas esperando para serem ditas, mas preferi a
sinceridade. Enfim ela entendeu, e sem nenhuma pressão, acabei com o
resto de minhas energias em cinco minutos. Ainda conversamos sobre o exílio de
sua família, sobre suas aspirações e sobre um curta cubano que havia achado
muito ruim, chamado “A Maldita Circunstância”. Se trata de um homem que
acorda com sua casa inundada, uma puta produção, meio surrealista, muito parecido
com Brazil, o Filme. Então ela me conta que esse filme havia sido baseado
em um poema homônimo, que falava sobre o destino do povo cubano, todo baseado
na “maldita circunstância”. – Mas afinal, qual é essa circunstância? E ela
diz: “O mar que cerca a ilha.” Passei a simpatizar com o filme. Foi quando
senti meu estômago pedindo um sanduíche e um refrigerante.

Desço e encontro o que restou da festa, as cinco da manhã. O guerreiro
Yuri, que havia transcendido a bebedeira, estava num estado de transe tal,
que seus olhos fundos não buscavam nenhuma direção. Estava apenas sentado na
mesa, tentando amassar latas com a palma da mão aberta, e não sei como
aqueles movimentos violentos não lhe feriam, afinal as latas estavam pé! Aquele
orifício de alumínio cortante não surtia nenhum efeito, surpreedendo
até mesmo Yuri, que consecutivamente olhava sua mão para checar se havia algum
dano. E voltava a tentar amassar as latas, esmagando-as com a mão aberta, até
não sobrar mais nenhuma. Estava numa puta fossa por ter se apaixonado pela
pessoa errada.

No dia seguinte, levanto, vou até a cafeteria onde encontro Yuri,
bebendo uma Tu-Kola (Mi Kola, Tu Kola, Nuestra Kola! Esse é o slogan), um
refrigerante de cola horrível fabricado por aqui, mas ótimo pra curar ressacas. Peço
uma gaseosa de limão, que é um pouco mais tragável, e brindamos. Tim-tim.
“Sabe porquê há esse hábito de bater os copos? Porquê, quando vamos beber,
estimulamos todos os sentidos, o tato, o olfato, a visão e o paladar,
menos o auditivo”. Me conta que havia sido estuprado por uma argentina durante
a noite e mal lembrava-se do que tinha acontecido.

É quando vejo uma formiga caminhando tranquilamente em seu ombro, me
preparo para tirá-la dalí. Yuri percebe meu movimento e grita:“Não faça isso!”
Dou um pulo pra trás. “Sabes que as formigas elegem a posição hierárquicas das
formiguinhas que estão nascendo? Desde a rainha até as trabalhadoras,
suas funções são designadas previamente. E tudo por telepatia!” Não me dei
conta se Yuri estava falando sério ou se ainda estava bêbado, fato é que ele
sempre me surpreende a cada momento.

Thursday, October 09, 2003

Diario de Bordo III - Pressao

Diário de Bordo III : Pressão
Passamos o dia inteiro em Havana, caminhando sem rumo e tomando um sol dos diabos na cabeça, até bolhas se formarem nos pés e ficarmos completamente esgotados. Geralmente, isso acontece porque saímos de San Tranquilino sem a MENOR idéia do que vamos fazer. Neste dia, caminhamos pelo Malecón, célebre locação de inúmeros filmes cubanos, que se trata de uma orla imensa, que dá vista para o norte, e vocês sabem o que há no norte, está todo imaginário cubano, ou pelo menos o inconsciente cubano. Vocês já repararam como a Flórida parece uma língua do capeta tentando lamber Cuba? É essa a impressão que se passa. Não lembro que jornalista brasileiro, cobrindo os Jogos Panamericanos, soltou a seguinte pérola: “Não é que Cuba não tenha bons nadadores, é que os bons já chegaram a Flórida”. Nesse dia em especial, encontramos uma dezena de pessoas distintas, entre elas um senhor de aproximadamente cinquenta anos, com barba por fazer, muito magro, com três ou quatro dentes apenas, orelhas de abano, olhos arregalados, vestindo um boné velho. Na verdade, foi ele que nos encontrou. Aqui, quem não é cubano, sempre é encontrado por alguém. Todos querem a mesma coisa: dinheiro. Já temos uma frase padrão pra escapar da mendigagem cubana: “Somos estudantes e vivemos aqui como você”. Na maioria das vezes, funciona. No caso desse senhor, que não era insistente, nem precisamos falar nada. Foi levado pela sua própria loucura. Mas a forma com que se aproximou nos chamou atenção. Estávamos sentados esperando a chuva passar, próximos ao Capitólio, e o senhor, que se apresentou como Tito, pegou uma moeda, enfiou na boca, e ficou segurando a orelha olhando pra gente. E eu crente que ele ia tirar a moeda detrás da orelha para a gente dar um trocadinho. Se ele o fizesse, confesso que pagava um café, adoro os mágicos, principalmente os que não tem recurso nenhum a não ser a própria habilidade. Mas o cidadão, ao invés de fazer o que eu havia previsto, simplesmente torceu a orelha e cuspiu a moeda outra mão. De momento, fiquei mal, deprimido com a cena, e foi então que ele se apresenta como primo de Che Guevara. “ Tito Guevara!” , digo eu. Finjo até o último fio de cabelo que acredito naquela história, sem a menor surpresa, como se Che fosse um cidadão comum. Não sei se por isso, ele saiu fazendo um sinal de jóia e balançando a cabeça afirmativamente. Talvez tenha ficado surpreso com a nossa falta de surpresa, e por fim, sentido um infinito vazio. Um outro par de cubanos se aproximaram no semáforo e caminharam uns cinquenta metros com a gente tentando descobrir de onde éramos. Esse costuma ser o mote principal para se iniciar uma conversa com turistas. Nos chamaram de italianos, argentinos, espanhóis, franceses, de tudo quanto é nome, até que dissemos “Brasil” e seus semblantes mudaram. É quando o mais jovem solta: “Zé Pequeno!” E eu com um ponto de interrogação na cabeça. Tentam se aproximar mais e mencionamos mais uma vez que éramos estudantes. Visivelmente eles foram se afastando da gente. O rapaz fã de Cidade de Deus estava com uma conjutivite dos diabos e provavelmente ia pedir dinheiro pra remédio.Voltando para a escola, o vento que entrava por todas as janelas escancaradas do ônibus aliviava aquela sensação de cola e ferrugem no corpo. A única coisa que pensávamos era em tomar um belo banho, comer um bocadito de queso (o equivalente ao nosso sanduíche de queijo quente, só que prensado), pegar e-mails e ir dormir. Ao chegarmos, lembramos que havia uma festa, mais uma, e as pessoas todas cheirosas, vestidas, bebendo, rindo, mas estranhamente concentradas numa área que é o corredor, que liga o edifício de entrada da escola até a cafeteria e os alojamentos, bem largo, extenso, arejado e revestido de vidro. Quando passamos a multidão, entendemos tudo: uma cascata, uma verdadeira catarata, inundava a cafeteria, e ninguém fazia idéia deonde vinha aquele volume de água. Era impossível subir a escada sem tomar um belo jorro de água na cabeça. Senti um estranho cheiro de xixi no meio da escada. Poderia ser o gato do Eloi, um persa parecido com o Garfield, chamado Piolho (piojo). Poderia ser Ulisses, um vira-lata simpático de orelhas tortas, uma caída e outra em pé, que fora adotado pela escola. Cheguei no meu quarto, no primeiro andar, ao lado da escada, em cima da cafeteria, e logo encontroo senhor Wilfredo, o encanador, desesperado mas ainda com seus nervos controlados. Wilfredo mesmo nervoso não muda o tom da sua voz. Perguntou-me para checar se havia algum vazamento em meu banheiro. Entrei, olhei, e nada. Wilfredo passa o punho na testa, coça a nuca, e, desolado, me diz: - Nãosei mais onde procurar! Wilfredo caminha em passos lentos batendo sua chave inglesa em seu ombro. Enfim posso me preparar pra festa, já que não vou conseguir dormir mesmo. Entro no banheiro e a primeira coisa que olho é a saboneteira. Nenhum escorpião dessa vez. Ainda não achei a mãe do coitado que se foi pelo ralo. Só espero que não venha procurar por ele a noite. Puta que pariu, não há água! Essa foi a primeira coisa que me veio a cabeça. Puta que pariu, é pra piscina que eu vou! Depois disfarço o cheiro cloro com um perfuminho. Acabar a água é algo que acontece sempre, pois a bomba não dá conta de todo o consumo que há na escola. Pelo menos uma vez por semana isso passa, mas sempre volta no dia seguinte. Me enxaguo na água quente da piscina. Volto, bebo um mojito e vomito tudo. Álcool ainda não me caiu bem nessa escola. Vou parar de vez. Empresto uns tampões de ouvido que o Mallorquino Sion usa para nadar e durmo com cheiro de cloro.No dia seguinte, domingo, mais precisamente as dez e meia da manhã, encontro o colombiano Victor Hugo e o bósnio Ozren. Abro meu computador e coloco uma música cigana. Essa domingo promete paz. Todos foram a Varadero. E VictorHugo diz: “Hey man, do you wanna get high?” Impulsivamente, disse: “Of cooooooourse!” Subimos, e na escada encontramos o brasileiro Iván colocando seu colchão no sol. Havia sido vítima da enchente da noite anterior: a dominicana Laura havia apertado a descarga de seu banheiro e saido do quarto, diretamente para Havana, sem perceber que a descarga não cessara. Foi aíque o vaso sanitário encheu (porque as mulheres têm o costume de jogar papel no vaso?), inundou seu banheiro, seu quarto, e Iván, que morava do lado, entre a escadaria e o quarto de Laura, teve seu quarto inundado de merda e mijo.Pior para ele, que usava seu colchão diretamente no chão. Iván é um carasimpático, devíamos tê-lo convidado a fumar um baseado com a gente. Só aceitei o convite do Victor por saber que sua erva não duraria muito neste lugar. Tanto queacabou em uma semana. O último fininho que ele tinha acabou perdendo na piscina, quando estava bêbado. Mas essa é outra história. O nosso maior erro, se é que podemos colocar nessas palavras, foi termos escolhido meu quarto como o local de confecção e uso da erva maldita. Bem acima da maldita cafeteria. Descemos chapados e sentamos nas confortáveis cadeiras que ficam perto da cafeteria. Não passa nem um minuto, quando percebo um segurança, e digo avocês, esse metia medo, tinha um bigode preto medonho e imenso, e seus olhos azuis ficavam cada vez mais fixos na gente. Mãos na cintura e um tique nervoso com o dedo indicador. Era um tipo cubano-russo pró-Revolução. Comecei asuar frio. Um minuto depois, vem o senhor que fica na cafeteria, mais gordo, mas com os mesmos olhos azuis e a mesma mão na cintura. Fiz uma puta cagada, penso eu. Deve ter marofado a cafeteria inteira. Óbvio que eles perceberam.Victor estava tão chapado que não percebeu aquele movimento. Os dois estavam definitivamente nos encarando e resmungavam algo entre si. Cinco minutos de paranóia, e eu já não sabia se era algo pessoal ou apenas coincidência,até que o segurança diz: “Mas vocês não iam para a piscina?” Só eu entendi a indireta. Victor estava babando, falando com não sei quem, tão louco quese eu perguntasse quem era sua mãe, me responderia “Omara Portuondo!”. Me fui apiscina. Tava tocando um jazz. Acho que era Charles Mingus. Theo, o chileno nervoso, se concentrava para pular na piscina, com as mesmas mãos nacintura. Eu já tava com o barato cortado, de tanto medo que fiquei. Todas ashipóteses me passaram na cabeça, desde ser advertido e humilhado publicamente até a deportação. Pensei em pedir desculpas, em passar com as mãos pra trás e com a cabeça baixa, em escrever uma carta para a direção, com a certeza de queisso já havia chegado ao seu conhecimento. No almoço, encontro Ivan, dosegundo ano, e conto para ele meu conflito. Me disse que obviamente tínhamos vacilado em dar tanta bandeira, mas como a escola é internacional, desvinculada do Governo Cubano, e onde os professores fumam mais que os alunos, isso passaria batido. Só não queriam que ficássemos nas dependências mais visíveis da escola.A parte mais difícil de encarar uma nova realidade, é ficar preso ao que você deixa pra trás. Isso realmente te bloqueia. Não há concentração, nem liberdade de espírito. Para mim está sendo mais fácil pois não deixei nenhum relacionamento sério e duradouro no Brasil. Mas com meu irmão brazuca que está aqui, foi bem mais complicado. Caminhando pelo corredor dos quartos, encontro Danilo com os olhos inchados, visivelmente procurando alguém paradesabafar. Chorando copiosamente, me convida para ir ao seu quarto beber um Jack Daniel’s. Não me sinto bem escrevendo sobre esse momento de intimidade e confissão, mas eu mesmo preciso me livrar desse fantasma. Foi uma noite atípica. Quem me conhece sabe que evito álcool porque meu corpo imediatamente rejeita, e tampouco tenho prazer em beber. Fico sincero demais, viro um bêbado patético, e como diz a argentina Victoria Murphy, pareço um péssimo ator interpretando. Pior que isso, só o arrependimento no dia seguinte. Mas era domingo, uma da manhã, ou seja, já era segunda e tínhamos aulas as noveda manhã, o que me fez pensar duas vezes. “Bebe aí senão você não é mais meuamigo…” Bem, o melhor que eu pude fazer foi entornar aquela garrafa como se fosse hábito. Não havia copos. Danilo chorando e bebendo, e eu bebendo também, quem sabe se eu me abrisse a uma conversa franca, me expondo, equilibraria a situação. Já havíamos bebido meia garrafa e falado sobre mulheres, adolescência, solidão, cinema, cosmos, aventuras sexuais frustradas, projeções para o futuro e enfim o reconhecimento de nossa responsabilidade dentrode nosso ofício. Já estava caindo pelas tabelas e Danilo mais animado.Ouvíamos Gal Costa, Bethânia, qualquer tipo de música que nos levasse a um sentimento de nostalgia e melancolia. E, citando o pensador romeno Cioran: “ A melancolia é uma espécie de tédio refinado, o sentimento que não pertence a essemundo. Para um melancólico, a expressão “nossos semelhantes” não tem nenhum sentido. É uma sensação de exílio irremediável, profundamente autônomo, †ão independente, tanto do fracasso quanto dos maiores êxitos pessoais. A nostalgia, ao contrário, sempre se prende a algo, ainda que seja apenas o passado.” Senti meus ossos como gelatina e minha boca tão seca que eu era incapaz de respirar sem sentir uma leve ânsia. Saímos para comprar água e caminhamos pelo corredor superior até as escadas. A chuva era torrencial e tive um certo deleite por aquela tempestade estar caindo naquele momento.Completava o cenário psicológico em que nos encontrávamos. Aí, mais uma surpresa, chegando na cafeteria, ainda nas escadas, encontramos Isabel, uma doce colombiana de 28 anos, com feições aztecas, também um pouco bêbada e com seu rosto pintado, meia parte branca e meia parte preta. Parecia ter saido de uma peça de teatro. Nos disse que havia aceitado trabalhar como modelo para testes de exposição de filme dos estudantes de fotografia: “Disse que só aceitaria aquilo em troca de rum!”. Compramos água, peguei um CD de salsa cubana e convidamos Isabel para ir celebrar a bebedeira com a gente. Eu já não aguentava mais meu estado catastrófico e Danilo e Isabel dançaram salsa até as quatro da manhã. No dia seguinte, a pior dor de cabeça que tive na vida e muitas lembranças. No dia 2 de outubro, ganhei um presente de aniversário um pouco abstrato: participaria como ator de um exercício de documentário do segundo ano. Elsa, uma francesa parisiense de quase um e oitenta de altura, havia me convidado uma semana antes para interpretar o filho único de uma família cubana quetenta fugir com uma bóia de caminhão. Obviamente só me chamaram porquenão havia diálogos. E aceitei não apenas por esse motivo, mas também para cabular as aulas matutinas de estética de montagem. Foi uma forma de escape,mesmo porque aquela professora maravilhosa, mais nova que eu, impede que seusalunos se concentrem em classe, com suas roupas apertadas e postura de bailarina. Sem dúvida foi a coisa mais interessante que poderia ter feito nesse dia: trabalhei como fumegador, onde operava uma máquina de fumaça para matar mosquitos de malária, colhi pneus velhos e com suas carcaças dei comida aos porcos, fiz arranjo com flores para minha mãe cubana, usei os mesmos pneus para fazer armadilhas para os mosquitos, e por fim, guardei a câmara do pneu de trator para usar como bóia e tentar chegar em Miami. Tudo isso vestindo uma capa de plástico duro, amarela, máscara, botas de borracha, debaixo de um sol de 37 graus, sem café da manhã e de ressaca, por causa das comemorações da noite anterior. E o mais bizarro de tudo isso é que, conforme o dia iaficando mais quente e eu com mais fome, cada vez me sentia melhor, como se me desprendesse de uma necessidade de conforto típica da classe média alta brazuca, me sentia mais forte, leve, lógico, feliz, chamem de masoquista se quiserem, por que sádicos são aqueles que se sentem bem num conforto privilegiado, quando ao seu lado existe alguém numa situação oposta.

Wednesday, September 10, 2003

Diario de Bordo II - O Choque

Ao chegar na escola, pensávamos que talvez poderíamos escolher os nossos quartos. Infelizmente, tudo estava pré-determinado para os alunos do primeiro ano. Foi a primeira vez que isso aconteceu em dezesseis anos de escola, para meu azar. Me deram o quarto com pior localização, o mais fodido, com ventilador de teto que mais parece um espanta-moscas. Aquela merda definitivamente não funciona. É um calor danado. E para tornar situação mais dramática, o quarto fica no primeiro andar, em cima da cafeteria. Ouve-se absolutamente de tudo, desde os catadores de lata que chegam as cinco da manhã, falando alto e raspando uma pá de ferro no chão de concreto para reunir o seu ganha-pão, fazendo um barulho estridente, daqueles de arrepiar os cabelos do cú, até as baladas que rolam até as quatro da manhã. Teoricamente, tenho apenas uma hora de sono tranquilo durante a noite. No começo, até que deu pra aguentar, conseguia ter uma seis horas de sono diárias. Essa média caiu para três horas de sono. Mas os talleristas, os estudantes de cursos rápidos de um mês, são infernais. Fazem festa quase todo dia.

Não demorou para que surgissem algumas atividades parecidas com dinâmicas de grupo, daquelas que se fazem e empresas para os funcionários se conhecerem e se relacionarem melhor. Uma brasileira chamada Ursula, carioca da gema e com sotaque bem acentuado, muito comunicativa, sacou um baralho duplo e chamou diversas pessoas para jogarem um jogo simples, chamado "desconfio". A brincadeira que fez sucesso consistia em livrar-se das cartas o mais rápido possível, descartando-as de forma que ninguém soubesse o verdadeiro valor delas, e a pessoa que a descartasse deveria falar qual era o valor da carta. A pessoa seguinte deveria fazer o mesmo, com a possibilidade de blefar. Seo fizesse, e alguém dissesse "desconfio!", todas as cartas descartadas iriam para a pessoa que blefou, ou para a pessoa que houvesse desconfiado erroneamente. Enfim, um jogo anti-estratégico e totalmente instintivo, que reuniu pessoas de diversos países: Brasil, Cuba, Suiça, Noruega,Colômbia, Cabo Verde, Bósnia, México, França, Espanha, República Dominicana, Andorra. Serviu para que as pessoas pudessem se olhar sugestivamente. Afinal, a desconfiança do jogo era apenas uma metáfora para a troca que estava ocorrendo naquele momento.

Era aniversário de uma colombiana chamada Lola, de cabelos castanhos escuros, ondulados, com uma mecha branca, natural, que lhe dava um ar desgraçadamente sedutor. A coitada está fadada a seduzir os outros. É uma pena, pois isso impede uma troca mais sincera, sem que uma conotação sexual esteja pairando no ar. Lola estava ganhando todas partidas. Não aparentava ter uma inteligência fora do normal, mas sem dúvida estava com muita sorte. Eis que chega um outro colombiano, Victor Hugo, com óculos de aro fino, magro, cabelos ondulados e queixo pontudo, muito simpático, se apresentando paratodo mundo. Havia chegado diretamente do aeroporto. Estava extremamente bêbado, vinha bebendo desde o aeroporto de Bogotá, onde entornou um litro de grappa antes de entrar no avião. Sabíamos que no dia seguinte as apresentações teriam de ser refeitas. Quando olhei para o lado, Lola já não estava mais, havia sido raptada por um estudante cubano. Geralmente os cubanos são mais ligeiros que os outros nesse aspecto. E dá-lhe rum com soda. Todos ficam cada vez mais bêbados. Os brasileiros pedem música brasileira. São os primeiros a sentirem saudade de casa.

O choque cultural se atenua quando percebemos que nós, brasileiros, não somos os únicos a termos dificuldades de adaptação. É uma espécie de consolo, pensar que junto com você sofrem outros setenta estudantes. Sofrer sozinho é que é o diabo! O primeiro banho foi um batismo para meus nervos. Primeiro, não havia água. Depois, quando veio água, descobrimos que o registro de água quente estava quebrado (pra quê água quente em Cuba?). Chamamos um senhor que é especialista em engenharia hidráulica e que fica à disposição dos alunos na escola. Com suas ferramentas da década de 50 conseguiu regularizar a situação. Entrando no banho, na saboneteira, encontro um filhote de escorpião de aproximadamente quatro centímetros. Mantive a calma e comecei a pensar o que fazer pra jogar aquele bicho horrível no ralo. Pego o chuveirinho (que vira uma ducha quando acoplamos na parede) e vou empurrando aquela peste. Mas como são rápidos!E pior, conseguem escalar paredes! Ele queria fugir para o quarto de qualquer jeito e eu molhando banheiro inteiro com o objetivo de encaçapar o bicho. Depois que consegui, me dei conta que a mãe poderia estar por perto. Tentei esquecer disso pra dormir melhor.

Desde que cheguei a Cuba, sofri uma série de danos físicos de baixa importância: decepei uma verruga de meu cotovelo, ao rolar para dentro da piscina, e ao que parece, não vai nascer de novo; ao sair do banho com os pés molhados, escorreguei e bati o punho na quina do degrau do banheiro, fazendo um corte grande mas superficial; tive o tornozelo contundido depois de uma dura pancada de um chileno que tinha excesso de vontade, num rachão entre comunistas e anti-comunistas (eu estava com os comunas); peguei umprincípio de gripe que estava passando pela maioria dos alunos da escola, pois é muito quente e há um ar-condicionado industrial na sala de Internet, ou seja, os mais carentes, que entram e saem em busca de mensagens, ficam mais expostos, nosso amigo Danilo, já no terceiro dia, teve uma febre que chegou quase aos quarenta graus. A primeira festa que reuniu os estudantes foi interessante. Nunca pensei que fosse passar por uma situação dessas numa Escola Internacional, ainda mais em Cuba.

Aqui, poderíamos dividir as pessoas em alguns sub-grupos: os europeus felizes, que são minoria, os europeus depressivos, que são maioria (entre eles), os latinos felizes e os latinos depressivos, que são minoria. Bem, estamos apenas no segundo mês. Acontece que trouxe um trio de caixas de som, não muito grandes, mas bastante potentes, que serviram para unir os estudantes em volta de uma certa diversidade musical que veio dentro de meu computador. Desde maracatu à MPB, de funk à eletrônico, de étnica à clássica, havia música para todos os gostos. Fazendo essa social por uma semana, mais precisamente a primeira semana, acabei sendo escalado de DJ oficial da escola, o que me agradou muito, já que prefiro colocar música para outros do que propriamente dançar. Mas isso não ocorreu na primeira festa oficial. Uma garota chamada Kristina, vinda da Yugoslavia-Zimbabwe, vai entender isso, acabou organizando e recolhendo o dinheiro para o aluguel de caixas de som potentíssimas e um amplificador que fazem parte do sistema de som da sala de cinema Glauber Rocha, e se sentiu na propriedade de dominar a escolha das músicas desta festa. O que ela não percebeu, é que a essência cultural havia se renovado mais uma vez, e jamais chegou a pensar que os estudantes do primeiro ano valorizam muito mais sua cultura nacional do que os da turma do segundo ano da qual ela faz parte. Sendo assim, a música techno dominou a área das onze da noite até as duas da manhã. A cena foi ridícula. As pessoas pedindo para trocar a música, para que houvesse mais variações de estilo, e ela irredutível, alegando que havia pessoas que nunca haviam dançado na vida e que naquele momento estavam se libertando (talvez ela estava se referindo a ela mesma?). Era pura balela. Quem estava colocando as músicas, a seu mando, curiosamente, era um garoto do primeiro ano, vindo da Noruega, chamado Sveinung Bokn. O chamamos de Sven, é mais fácil. É um grande amigo nosso, demos um apelido a ele que só o brazucas entendem, "O Empata-foda", pois sempre que há alguém flertando, ele chega abafando. Aquele nórdico maluco estava muito bêbado e empolgadíssimo como som que colocava, mesmo com sete pessoas dançando e outras sessentas e duas paradas. Eu já havia estado do balcão do bar com meu banco de dados musical, fazendo uma seleção especial para os latinos, que misturava Jorge Ben,Tom Zé, Di Melo, Chico Science, Martinho da Vila, Tim Maia, Los Van Van, Manu Chao e por aí vai. Estava todo mundo aflito porque ninguém conseguia tirar Sven do maldito som. E eu, com toda cautela, já havia dado um aviso prévio a ele, aliás, não apenas um, mas três, e toda vez que tentava uma comunicação ele fingia que não ouvia, pois Kristina constantemente o ameaçava, e me parece que ele interpretou aquilo como teste de hombridade. Daqui ninguém metira, deve ter pensado ele. Chilenos, Colombianos, Cubanos, Venezuelanos, Porto-Riquenhos, Hondurenhos, Nicaraguenses, Peruanos, toda a fauna latina me empurrava para o som. Sentei discretamente ao lado de Sven, posicionei discretamente ao lado de Sven, posicionei o computador e ensaiei um movimento ilustrativo de como poderia facilmente tirar o cabo de seu discman e mudar o clima pesado da festa. Quando fiz o movimento, Sven começou e me dar uns trancos e a soltar uns grunhidos, falando "NO, NO, ESTOY NERVIOSO!", cacete, levei na boa, mesmo porque não vou encarar um viking bêbado e insano. Dizem que os Vikings, antes de ir às lutas que evitaram a dominação que outros povos tentavam lhe implicar, comiam cogumelos e bebiam cachaça à base de mel, ou seja, não duvido nada que isso tenha se agregado à genética de Sven. Um chileno muito mal-humorado e muito bêbado (como podem perceber, as duas e mais da manhã já não havia niguém são), Theo, ameaçou Sven fisicamente, sendo contido por Sion, um espanhol de Mallorca e muito pacifista, e assim o norueguês passou a perceber que estava cercado por uns oito latinos prestes a partir para as vias de fato. Um outro chileno chamado Edwin, o mesmo que detonou meu tornozelo, foi o mais ousado, apesar de sua baixa estatura, entrou entre eu e Sven, tirou o cabo do discman, e muito sem jeito e com a visão distorcida de morritos, tentava encaixar o cabo P2 (cabo de fone de ouvido), numa entrada USB, que não tem absolutamente nada a ver em seu formato. A mesma coisa que encaixar uma bola num quadrado. Ajudei ele, apertei play e afesta se reanimou. Até Sven foi pra pista dançar salsa. Kristina sentou na escada, indignada. Juntou ao meu lado um porto-riquenho, Freddy, que parece um dos Menudos, com se MD cheio de músicas dançantes e assim fomos felizes pelo resto da noite. Isso me fez pensar na natureza e influência das músicas. Enquanto a música latina é algo muito mais coletivo, em que as pessoas têm mais contato físico, a música eletrônica, criada em sua maioria a partir de experiências com drogas como ecstasy e LSD, são bem mais individuais, onde cada um fica na sua e se manifesta corporalmente da forma que bem entende. Ambas podem ser interessantes, mas colocadas lado a lado são bastante conflitantes. No entanto, achamos um ponto de equilíbrio, um ponto em comum que agradava gregos e troianos: a música funk. Se ela americana, brasileira ou francesa, todos dançam incessantemente. Se alguém por aqui tinha alguma dúvida que as músicas provindas de raízes negras exerciam uma poderosa influência espiritual sobre as pessoas, esta tornou-se certeza e a paz novamente instalou-se em San Tranquilino. Chega um rapaz da Espanha, que sempre grita "Viva aGalícia!", falando que odeia insetos. Conto sobre o episódio do escorpião, e ele rebate: "Mas você sabia que eles sempre andam em duplas?"

Tuesday, August 26, 2003

Diario de Bordo I - A Chegada

Diário de Bordo I - A Chegada

Mal havíamos entrado no avião e nos deparamos com um senhor de fartos cabelos brancos,
com a pele rosada e rosto rechonchudo, gritando aos ares, querdizer, parecia esbravejar consigo mesmo, até percebermos que brigava com ocomissário de bordo: “O senhor é muito mal educado, o que é de direito é de direito! Estão amassando a roupa da minha mulher!”
O comissário fingia que nãoouvia, exceto pelo fato de que o senhor causava um certo constrangimento nos passageiros, e talvez, se continuasse poderia ser expulso do avião.

Pensei que talvez aquele senhor, pelos seus atos, estivesse destinado a morrer num desastre de avião, mas pera aí, estou no mesmo avião que ele, tomara que tenha muito mais bem-aventurados nessa viagem do que propriamente pessoas mesquinhas e prepotentes. A sorte estava lançada. A parada no Panamá foi oportuna. Deu para acalmar os nervos daquele senhor. Algumas compras, uma cerveja e dois cigarros foram o bastante para baixar a pressão dele.
E também a pressão arterial dos mais consumistas. O aeroporto panamenho é um verdadeiro shopping center. Ouvimos dizer que, por haver o canal do Panamá e todas essas coisas, os produtos eletrônicos chegam lá com mais facilidade, e por conseguinte, para vender-los, “inventaram” umas escalas de aviões que não necessariamente deveriam fazer a parada, apenas para os passageiros consumirem um pouco mais.

Chegando em Cuba, foi um frisson: o avião não caiu, o tiozinho hipertenso não teve nenhum outro piripaque e a ansiedade para pisar em solo cubano aumentava cada vez mais. Andando pelo corredor até a sala de entrada, vimos na pista de avião, um Audi A4, e logo pensamos: Estamos mesmo em Cuba? Alguém me diz no meu ouvido “Deve ser o Fidel ou seu irmão, Raul”. Jamais duvidei de que poderia ser ele, mas logo descobrimos que há vários diplomatas em Cubaque só andam em carros importados, como no Brasil, enfim, diplomata é bicho que aproveita demais suas regalias.

Na fila de entrada, havia pelo menos doze guichês e todos funcionando. Nosso querido amigo Danilo, com seu cavanhaque a la Al-Qaeda, foi o primeiro abordado. Mal encostou suas malas no chão e um custodio (guarda) pediu seu passaporte, olhou a foto, olhou para Danilo, olhou para a foto, fechou o passaporte e sem olhar para seu rosto dando sua palavra final, lhe devolveu seus documentos. Aqui confesso que por muito tempo fui usuário de mariajoana (escrevoassim porque por aqui há filtros nas mensagens) e muito pensei em trazer um pouco para Cuba.

A maioria dos egresados que encontramos durante a preparação nos deram todas as dicas para se transportar uma quantidade segura da erva maldita: dentro de bonecos de durepox, para não ser pego pelo Raio-X, ou dentro de potes de tempero, para passar tranquilo pelos cães farejadores, que poderiam ou não estar presentes na alfândega, dependendo do trânsito de universitários. De qualquer forma, decidi não viajar carregado, pois com certeza me entregaria ao primeiro sinal de vigilância e começaria a suar e tremer sem parar. Como se não bastasse minha péssima habilidade para mentiras ou cinismo, mesmo como forma de proteção, comecei a sonhar com cães farejadores uma semana antes da viagem. Todos olhavam para mim e abanavam seus rabos, com suas orelhas em pé, como se eu realmente tivesse algo comigo.Então, para livrar-me da tentação, fumei todo meu estoque em duassemanas. Mas ao sair de casa, não resisti, peguei todas as pontas, as desmanchei, reuni num plástico de maço de cigarro, enfiei no meu tênis e me fui.Voltando ao aeroporto, ao desembarcar, uma surpresa: um labrador, um pastor alemão e um cocker spaniel caminhavam entre as pessoas que desembarcavam. Como gosto muito de cachorros, nem me passou pela cabeça que fossem farejadores. Achei que fossem animais de estimação dos passageiros. Mas no meio do caminho, desisti ridiculamente, quase perdendo equilíbrio com as três malas que carregava. Ninguém percebeu a minha vacilada.

Ao pegar as malas, que demoraram cerca de uma hora e meia, pois pareciaque cada mala passava por um raio-X, então imaginem cerca de trezentas malas, aparecendo uma de cada vez, as vezes demorando de trinta segundos a um minuto entre uma e outro, resolvi perguntar a um custodio, para quebrar o gelo,se poderia fumar naquele ambiente… e ele disse: “ Todo lo que quieras!”. Foi aí que comecei a gostar dos cubanos.